sábado, 19 de agosto de 2017

Ela me deixa louco - Capitulo 08





— Quando aquele seu amigo vai vir? Eu quero minha poltrona inteira de novo.

— Chris está viajando agora, mas eu falei com ele ontem à noite e no começo da semana ele vai vir aqui.

— Só mantenha o gato longe.

— Hum, então não vai mais chamá-lo de coisa? — Ela provocou sorrindo.

— Ele não é tão ruim assim.

— Eu sabia. Sabia que você ia gostar dele.

— Eu não gosto dele. Eu só... Não o acho tão ruim.

— Eu tenho uma pergunta.

— Quando você não tem?

— Muito engraçado. Estamos tentando ser amigos, lembra? Amigos fazem perguntas.

— Mas você abusa desse benefício. Tudo bem. Faça a pergunta.

— Você nunca sai?

— Por que eu sairia? Tudo que eu preciso vem até aqui.

— Isso não é um motivo. Não é saudável ficar tanto em casa.

— Esse não é o motivo. Não o total.

— E qual é?

— Lembra sobre os problemas óbvios? — Ele perguntou apontando para a cicatriz. — Sem perguntas sobre isso. Era o combinado.

— Eu não estou perguntando sobre isso. E não acredito que seja pela cicatriz.

— Eu não sei sobre você, mas me incomoda quando as pessoas me encaram e apontam.

— Isso é ridículo.

— Eu pensei que não pudéssemos ofender um ao outro. — Ele rebateu.

— Você não. — Se corrigiu rapidamente. — Eu não estou ofendendo você. — Explicou. — É só que, é besteira não sair por isso.

— Você fala isso porque seu rosto é perfeito.

— O seu também. A cicatriz te dá um ar sexy. — Disse sem pensar e ele arqueou a sobrancelha, sorrindo. — Ok... Foi um comentário inoportuno. Eu falo coisas sem pensar, às vezes. Acostume-se. Agora que o momento constrangedor passou. Que tal dar uma volta?

— E por que eu entraria em um carro com você? Você não me parece a melhor motorista do mundo.

— Sem ofensas, lembra?

— Eu não estou ofendendo. Estou contatando um fato. Ofender seria dizer que você é um perigo para a sociedade. Mas eu não disse isso.

— Tá legal... — Estreitou os olhos. — E eu não sou tão ruim. — Acrescentou. 

— Não importa. Não vou sair com você.

— Tá bem. — Ela disse vencida. — O que você quer para o almoço?

— Comida japonesa.

— Ew. — Fez cara de nojo.

— Qual seu problema com comida japonesa?

— Eu não sei você, mas eu gosto dá minha comida muito bem cozida, obrigada.

— Quer dizer que nunca provou?

— Não. Por que eu provaria? Eu acabei de dizer que gosto de comida cozida. Se importa se eu pedir um lanche de outro lugar para mim?

— Não. Me chame quando a comida chegar.

— Está bem. — Ana disse saindo. 

Ela pediu o almoço e em seguida foi para a biblioteca. Após alguns minutos a campainha tocou e Ana foi atender.

— Olá. — Ela saudou o entregador, sorrindo. — Chegou rápido.

— Olá, você... — O rapaz devolveu o sorriso. — Eu não sabia que havia novos moradores aqui. Não uma tão bonita. — Acrescentou.

— Já veio aqui? — Perguntou, ignorando a cantada.

— Já. Tinha um cara aqui. Ele era um idiota. Acho que era músico. Se achava muito.

— Quanto dá?

— Se você me der seu telefone é por conta dá casa, gracinha.

— Eu prefiro pagar. — Retrucou fechando a cara.

Era um absurdo, os caras atualmente não tinham um pingo de respeito. Será que é difícil ver uma garota e não sair cantando ela na primeira oportunidade? Nem todas gostam, algumas acham o gesto repugnante. 

— 45,90, então.

— Aqui. — Passou o dinheiro para ele. — A propósito, o nome do músico que mora aqui é Tyler. E o único idiota aqui é você. — Ana bateu a porta. 

Quem esse mané pensava que era? Chegar aqui ofendendo as pessoas. 

Ana pegou a comida e levou para a sala.

Depois de arrumar tudo, ela foi até o escritório para chamá-lo e ouviu uma música tocando bem baixinho. Ela reconheceu como Greensleeves e sorriu, abrindo a porta devagar, o fazendo desligar a música.

— Por que desligou?

— A comida chegou? — Respondeu com outra pergunta, desviando o assunto.

— Já. — Ele se levantou com dificuldade e ela o esperou. 

Os dois sentaram-se à mesa e ela ficou encarando a comida dele.

— Sua mãe não te ensinou que é feio encarar a comida das pessoas?

— Eu não conheci minha mãe, então não. Mas minha tia me ensinou. Eu que nunca aprendi. — Respondeu de forma petulante, contudo Tyler ignorou esse detalhe, já estava acostumado com esse jeitinho dela.

— Não conheceu? — Ele perguntou e ela suspirou.

— Ela morreu quando eu nasci.

— Sinto muito.

— Tudo bem. Vamos deixar isso nos assuntos que não falamos, ok? — Ela pergunta e ele assentiu.

— Aqui. Você tem que provar. — Disse meio sem jeito, empurrando o próprio prato para ela.

— Não tenho, não.

— Não está no seu contrato que você tem que seguir minhas ordens?

— Sim, mas isso é abuso de autoridade. Eu posso processar você, sabia?

— Mas você não vai. — Respondeu, deixando escapar uma risada. — Como sabe que não vai gostar se nunca provou?

— Eu sei que pular de um penhasco me mataria e nunca testei a teoria para saber disso.

— Sempre uma resposta.

— Se você conhecesse a Maggie, também seria assim.

— É quem é essa?

— Minha prima, mas fomos criadas juntas, então ela é como se fosse minha irmã.

— Hum. — Refletiu. — Que tal um acordo?

— Que tipo de acordo?

— Eu saio com você. Se... Você provar a comida.

— Isso é jogo sujo.

— Não é, não. Comida japonesa não vai te matar. Você atrás de um volante por outro lado...

— Ei... Eu não sou tão ruim. Eu não levei nem uma multa.

— Desde quando?

— Do começo do mês.

— Estamos na segunda semana do mês. Isso não quer dizer muita coisa.

— Muito engraçado. Está bem. Eu provo. Mas você vai sair comigo e eu não quero desculpas.

— Você é bem mandona para o seu tamanho. Aqui. Prova. — Ele disse oferecendo outra vez seu próprio prato. Ela já ia usar o garfo quando ele a impediu. — Não. Você está fazendo errado. Tem que usar o hashi.

— O garfo foi uma das melhores invenções que criaram. Por que eu comeria com palitinhos?

— Esses são meus termos. Se quiser que eu saia com você, tem que ter a experiência completa.

— Está bem. — Respondeu revirando os olhos. — Essa coisa não para de escapar.

— Porque você está segurando errado. Aqui. — Tyler segurou o próprio hashi, o levando até a boca dela. — Se quiser que eu saia o acordo é esse. — Ana fez careta e abriu a boca, recendo a comida e depois mastigando.

— Então?

— Não é tão horrível quanto eu pensava.

— Viu? — Sorriu vitorioso.

— Eu fiz minha parte. Agora você tem que cumprir a sua.

— E para onde vamos? — Perguntou emburrado, desfazendo o sorriso.

— Ei. Sem essa cara. Eu só tenho que fazer umas pesquisas.

— Então não vai me dizer?

— Isso não era parte do trato. Você vai se divertir. Eu prometo.

— Espero não me arrepender.




                           CONTINUA...
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domingo, 13 de agosto de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 07









Tyler olhou para a porta, esperando que ela voltasse para se desculpar, mas no fundo ele sabia que ela não voltaria. Não para se desculpar pelo menos e quando ela não voltou nem para ofendê-lo, ele soube que havia passado dos limites.

O dia se arrastou e Tyler ficou no escritório lendo. Já estava quase na hora dela ir embora, mas ela não tinha aparecido depois do almoço. Ele estava quase pegando no sono quando ouviu uma batida na porta.

— Eu já vou, senhor Smith. Precisa de mais alguma coisa? — Ela perguntou e quando ele ouviu o senhor Smith , ele soube que havia mesmo ido longe demais.

— Não. Estou bem. — Ela já estava saindo quando ele a chamou. — Anabeth?

— Sim?

— Desculpe pelo meu comentário na hora do almoço. Eu queria irritar você e passei dos limites.

— Realmente passou. Quando eu disse que passaria a noite aqui, minha intenção não era...

— Eu sei. Eu sei que sua intenção era que eu me sentisse melhor. Nada alem disso. — Ana olhou para ele e suspirou, se aproximando.

— Olha, meu contrato é de um ano e você não vai se livrar de mim. Então não seria muito mais fácil se tornássemos a convivência agradável?

— Agradável? Como o bonitinho? — Perguntou com um sorriso brincando nos lábios.

— Eu diria que podemos ser amigos, mas isso não depende de apenas um lado, Tyler. Já ouviu a expressão quando um não quer, dois não brigam? Eu não posso ser sua amiga sozinha. — Disse com uma expressão séria.

— E como isso funcionaria?

— Isso o que?

— Esse projeto de amizade. Como funcionaria?

— Um bom começo seria você não reclamar da comida o tempo todo. E sua língua não cairia se você dissesse obrigado algumas vezes.

— Ei, eu agradeci de manhã.

— E me insultou a tarde. Então não conta.

— Eu já me desculpei.

— Eu sei. Não estou brigando, apenas fazendo uma observação. Você não pode me insultar, pedir desculpas e me ofender de novo, Tyler. Não vamos conseguir ir para lugar nenhum assim.

— Eu entendi. E já que não vou me livrar de você...

— Não vai. — Concordou sem hesitar.

— Já que não vou me livrar de você — continuou —, tenho uma pergunta. Você gosta desse emprego?

— Claro. — Respondeu olhando para baixo e mexendo no cabelo.

— Quer tentar uma resposta mais convincente?

— Tudo bem, não é o emprego dos sonhos, mas não é ruim.

— Então essa não é a carreira que você queria?

— Não exatamente.

— E qual é?

— Escritora, mas não é uma área com muitas oportunidades.

— Então desistiu e virou cuidadora?

— Eu não desisti. E não sou uma cuidadora. Sou sua assistente.

— É, isso aí. — Balançou a mão no ar com desdém. — Então desistiu de ser escritora para virar assistente?

— Eu não desisti.

— Mesmo? Eu não vejo você escrevendo ou publicando livros.

— Por melhor que seja a sensação de escrever ou publicar um livro, ter um teto sobre a cabeça e as contas em dia é melhor.

— Então é pelo dinheiro?

— É um motivo.

— Um?

— Olha, é complicado. Por que está fazendo essas perguntas?

— Só você pode fazer as perguntas? — Rebateu com um sorriso torto que deixava a cicatriz em seu rosto ainda mais evidente.

— Eu não faço muitas. E não sobre o porquê da sua escolha de profissão. Você era pianista, não era? Por que escolheu essa carreira? Eu não vejo você tocando.

— Tudo bem. Acho que já chega de perguntas.

— Você pode perguntar sobre minha vida profissional, mas eu não posso perguntar sobre a sua?

— Você não vai deixar isso, não é?

— Já estou aqui há três semanas. Você deveria saber que não. — Sorriu presunçosa. — Mais cedo, eu estava cantarolando uma música. — Comentou.

— Greensleeves.

— Você conhece?

— Claro que conheço. Era uma das minhas favoritas.

— Era?

— Era. No passado. Não gosto mais.

— Dela?

— De música.

— Não gosta? É difícil imaginar um dia sem música. Eu sempre começo meu dia com música. Devia experimentar... Se quiser. — Ela disse lembrando-se do que ele havia dito sobre todos saberem o que é melhor para ele e que as pessoas sempre tomavam decisões por ele.

— Não, obrigado. Prefiro o silêncio.

— Mas você era, não era? Um pianista?

— Eu era. No passado.

— E você gostava?

— Adorava. A música fluindo, os sons saindo das teclas sem tropeçar. Os aplausos de admiração quando eu terminava as apresentações sem erros. — Ele disse com um brilho diferente no olhar. — Era... Era como se eu me perdesse sempre que tocava piano.

— Não pode mais tocar ou simplesmente não quer?

— Eu não quero fazer uma coisa em que não terei mais 100% de sucesso. O acidente me tirou isso também.

— O senhor Patz nunca contou. Como...

— Você não estava indo? Por mais que estejamos tentando essa coisa de amizade, não acho que você queira passar outra noite aqui.

— Eu estava. — Assentiu.

— Então guarde sua curiosidade e vá para casa. — Disse voltando a ser o grosso de sempre e Ana saiu de lá sabendo que não conseguiria mais nada com ele.

— Eu vou, mas antes... Por que você faz isso?

— Isso o que?

— Isso. Você baixa a guarda, mas se alguém se aproxima você levanta o muro de novo e volta a se fechar.

— Acho que é mais fácil assim. É melhor você ir.

— Mas...

— Eu vou me deitar. — A cortou, já se levantando e mostrando que a conversa havia acabado.

— Está bem. Até amanhã, Tyler.

— Até amanhã, Anabeth.

— Posso pedir uma coisa? — Ela perguntou, o fazendo suspirar.

— O que?

—Você disse que não gosta de ser chamado de senhor Smith . Porque faz com que se sinta velho, certo?

— Disse.

— Então pode me chamar de Ana? Sempre que escuto meu nome completo eu me lembro do meu pai e eu sinto como se tivesse feito alguma coisa errada.

— Qual o problema de se lembrar do seu pai? Ele...

— Não. Ele não morreu. É só... Complicado.

— Complicado como? – Perguntou.

— Apenas complicado. Não quero falar sobre isso.

— Então você pode fazer perguntas sobre mim, mas eu não posso fazer sobre você?

— Você não está fazendo perguntas sobre mim. Está sendo intrometido e fazendo perguntas sobre meu pai.

— Quem está sendo arrogante agora? — Perguntou sério e ela ficou sem palavras.

— Eu... Eu não gosto de falar ou me lembrar dele. Ele não é uma boa pessoa. É isso.

— Não é uma boa pessoa? Ele tem algum problema ou algo assim?

— Pode, por favor, parar de falar disso? — Perguntou, baixando os olhos e Tyler decidiu que era melhor acatar ao seu pedido.

— Posso. Então que tal isso: eu não faço perguntas sobre seu pai e nem nada disso, se — frisou — você não perguntar sobre alguns problemas óbvios. — Apontou para a cicatriz e a perna com problemas.

— Feito.

— Ótimo. Agora você pode ir. — Disse e ela revirou os olhos.

— Boa noite, Tyler.

— Boa noite, Ana. — Respondeu e ela sorriu, indo embora.



                           CONTINUA...



sábado, 5 de agosto de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 05








— Você! — Ele rugiu assim que ela passou pela porta.

— Bom dia para o senhor também, senhor Smith. — O cumprimentou, ignorando seu mau humor. — Eu trouxe café.

— Eu quero essa coisa fora da minha casa! — Continuou gritando.

— Que coisa? — Perguntou confusa.

— Essa coisa que você chama de gato. — Respondeu enfurecido.

— Eu já disse que não posso levá-lo. — Declarou. — O que aconteceu?

— O que aconteceu? — Perguntou com um tom carregado de ironia. — Venha ver o que essa bola de pele rosada fez. — Disse caminhando com dificuldade até seu escritório.

 Quando Ana chegou lá, entendeu por que ele estava tão irritado.

— A versão animal do Freddy Krueger aí, destruiu meu escritório. — Ralhou apontando para o Peludo, que dormia tranquilamente.

— O senhor tem certeza que foi ele? — Perguntou. — Podem ter entrado aqui e...

— E destruído minha poltrona, minhas cortinas e deixado aquilo na mesa? Sério? — Vociferou a interrompendo.

— O senhor viu o Peludo fazer isso?

— Não preciso ver para saber!

— Então não pode acusá-lo. — Defendeu-o

— Você bateu a cabeça ou sempre foi assim? — Inquiriu, olhando para ela como se fosse louca. — Ele é um gato, quem mais...

— Ah! — Vibrou com a vitória. — Então admite que ele é um gato? — Questionou e ele suspirou passando as mãos pelo cabelo.

— Você tem problemas. — A acusou apontando para ela. — Eu nem sei por que tento discutir com você. Eu não preciso ter provas pra saber que foi ele, sua maluca. — Vociferou. — Olha o que ele fez com a minha poltrona. — Apontou para o móvel que estava todo destruído pelas unhas da pequena fera. — Eu quero tudo isso limpo. — Declarou irritado.

— Desculpe, senhor Smith, mas eu sou sua assistente, não sua empregada. — Defendeu-se.

— Exatamente! Você é minha assistente, então cumpre minhas ordens. E eu estou mandando você limpar essa bagunça! — Bradou. — Além do mais, foi você quem trouxe esse mostrengo aqui.

— Se o senhor não tivesse ofendido o Peludo, ele não teria feito isso. — Respondeu apontando para a bagunça.

— Ele é apenas um animal. — Constatou.

— Que tem sentimentos. — Retrucou.

— Ah sim! Sentimentos do mal. — Respondeu irritado com a petulância daquela garota. — Eu aposto que ele esta tramando minha morte agora. — Tyler disse apontando para o gato que ronronava aos pés de Ana.

— É claro que não. — O defendeu. — Olhe para ele. — Disse o pegando no colo e assim que se aproximou de Tyler, o gato rosnou.

— Viu! — Apontou. — Ele é do mal!

— Eu não sei o que o senhor fez para ele, mas...

— Como é? — A interrompeu indignado com o que ela dizia. — O que eu fiz para ele? Olha, eu... — E antes que pudesse dizer mais alguma coisa espirrou.[

— Saúde.

— Só... arrume tudo — Indagou olhando para o escritório. — E deixe essa coisa longe de mim.

— O senhor está bem? — Perguntou preocupada.

— Ótimo. — Vociferou voltando ao escritório com a ajuda de sua bengala.

Ana olhou para o escritório sem saber por onde começar.

— Você fez mesmo isso, Peludo? — Perguntou olhando para o gato que miou de volta. — Ele foi malvado com você, não é? — Questionou. — Tudo bem, ele é comigo também. — Acrescentou o colocando no chão e começou a limpar tudo.

 Algumas horas depois ela fez o almoço, mas ele não quis descer, fazendo-a comer sozinha na cozinha. Quando seu expediente estava no fim, ela foi até o quarto avisá-lo que estava de saída.

 Foi até o quarto e bateu duas vezes na porta. Então ouviu o barulho da descarga e depois de um tempo a porta de abriu.

— O que? — Perguntou a olhando.

— O senhor está bem? — Respondeu com outra pergunta, o observando. Sua pele parecia pálida e havia um leve brilho na testa. Além disso, suas bochechas estavam rosadas e seu nariz vermelho.

— Eu estou ótimo, não está vendo?

— Ah. — Respondeu voltado a si. — Eu já estou indo. Deseja mais alguma coisa?
— Não. — Respondeu já fechando a porta.

— O senhor está bem mesmo? Parece pálido. — Declarou, segurando a porta.
— Eu não tive muito tempo para um passeio hoje, Anabeth. — Respondeu com um tom que transbordava sarcasmo.

— Não foi o que eu quis dizer. — Defendeu-se.

— Você não disse que já estava indo? — Questionou. — Eu estou bem. Vou ficar ainda melhor quando você sair por aquela porta. — Acrescentou fechando a porta.

— Boa noite pra você também. — Respondeu para a porta fechada e se virou, indo embora.

*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*

— Maggie? — Chamou a prima assim que entrou no apartamento.

— Aqui! — Respondeu, saindo da cozinha e se jogando no
 sofá. — Demorou. Como foi seu dia? — Perguntou curiosa.

— Cansativo. — Declarou se jogando ao lado da prima. — E o seu?

— Jackson me chamou pra sair. — Entoou. — De novo. —Acrescentou.

— Você já considerou dar uma chance? — Perguntou fechando os olhos por um minuto.

— E por que eu faria isso? — Questionou a olhando.

— Você gosta dele, os dois estão solteiros, trabalham juntos e gostam das mesmas coisas, além de serem amigos.

— Você está falando sério?

— É claro. — Indagou. — Jackson parece realmente gostar de você. E ele é totalmente diferente do Ian. — Respondeu com escárnio na voz. Ian havia sido um grande erro.

— Nem me fale desse cretino. — Grunhiu. — Não existe comparação entre Jackson e ele.

— Viu? Então por que não dá uma chance? — Perguntou.

— Porque apesar de gostar dele e de sermos amigos, ele é meio galinha. O que você acha que ele quer comigo?

— Talvez ele queira alguma coisa séria. — Respondeu sinceramente.

— Quantos anos você tem, Ana? — Questionou sem acreditar que a prima falava sério. — Estamos falando do Jackson! — Acrescentou.

— Exatamente. Vocês se conhecem a tempo de mais pra ele jogar tudo fora por sexo. — Constatou. — Além do mais, ele disse uma vez algo sobre gostar de mulheres que não correspondem. Ele podia estar falando de você.

— Mesmo que estivesse...

— Ele estava. — A interrompeu, recebendo um olhar fulminante que a fez se calar.

— Mesmo que estivesse... — Continuou. — ...isso nunca daria certo.

— Por que não? — Perguntou.

— Porque trabalhamos juntos.  E eu amo meu trabalho. Seria estranho.

— Não seria estranho. — Disse simplesmente.

— Seria o mesmo que você namorar o odiador de gatos. — Ana sentiu um arrepio com a ideia de namorar aquele homem, mas estranhamente, não era um arrepio ruim.

— Não seria, não. — Replicou. — Existe diferença entre trabalhar com e trabalhar para. E o Jackson não é uma dor na sua bunda como Tyler é na minha.

— Uau! Estamos mais irritadas com ele do que o normal? — Perguntou esquecendo-se de Jackson por um momento. — O que ele fez dessa vez?

— Além de ser um grosso mal educado? — Perguntou afundando no sofá e Maggie assentiu. — Ele me fez limpar o escritório dele.

— Você é assistente dele. — Constatou confusa. — Não é sua função?

— Arrumar sim. Limpar não. — Respondeu. — Mas já que foi minha ideia levar o Peludo, eu não tive escolha.

— O que o gato fez? — Perguntou curiosa.

— Destruiu a poltrona, as cortinas e deixou uma lembrancinha na mesa. — Quando Ana disse isso Maggie começou a rir.

— Ele não fez! — Maggie declarou incrédula.

— Fez. Ele disse que como foi minha ideia levar o gato, eu tinha que limpar. — Respondeu cansada.

— E o que você vai fazer agora? — Questionou.

— Como assim?

— Qual é, Ana! Eu conheço você. Quando ele fez você rodar a cidade atrás da ração você deu o gato para pagar.

— Eu não dei o gato como vingança, Maggie. Dei porque pensei que uma companhia faria bem à ele.

— Aparentemente não fez. — Declarou. — O que vai fazer agora?

— Ainda não sei. — Respondeu suspirando. — Ele é tão... Teimoso e mal educado e grosso e...

— E você gosta dele. — A interrompeu sorrindo.

— O que? — Praticamente gritou levantando-se do sofá. — Não gosto, não! — Ralhou com a prima.

— Gosta sim. — Acusou. — Eu nunca vi você ficar tão brava com alguém. Você é sempre gentil.

— Mas ele é um idiota. Está na hora de aprender que as coisas nem sempre são do seu jeito.

— E o que vai fazer? Se demitir? — Perguntou.

— Eu não sei. Eu não vou dizer que estou feliz lá. — Respondeu suspirando. — Porque seria mentira. Mas quando eu penso... Todos lhe deram as costas, Maggie. — Acrescentou olhando para a prima, que a observava atentamente. — Você sabia que ele já foi casado? Parece que ela o largou.

— É claro que eu sabia. — Respondeu como se fosse óbvio.

— Como? — Questionou.

— Você não pesquisou sobre ele? — Perguntou em choque. —Francamente, Ana.

— Me desculpe, senhora “preciso investigar todo mundo.” — Disse com sarcasmo.

— É o meu trabalho. — Defendeu-se.

— Você é jornalista, Maggie. Não é agente do FBI. — Declarou. — Não precisa saber tudo sobre todo mundo.

— Vai me deixar falar ou não? — Perguntou.

— Está bem. Qual é a história?

— Parece que ele era casado, mas depois do acidente eles se separaram. Boatos dizem que ele ficou mal, mas ela ficou muito pior.

— Ela também estava no carro com ele? — Perguntou horrorizada. Tyler mancava, tinha problemas de coordenação e uma enorme cicatriz – mas muito sexy – no rosto. Como sua ex- mulher poderia ter ficado pior?

— Estava. — Respondeu. — O acidente mexeu com ele, mas ela ficou paraplégica. Ela era modelo, não foi surpresa que nem um mês depois do acidente, sua carreira caiu.

— Que coisa horrível! — Respondeu em choque.

— Eles se separaram e depois do acidente nunca mais se teve noticias dela. Ele por outro lado, só tem o pai.

— O doutor Patz . Sim, ele é médico, mas e a mãe dele?

— Morreu no parto. Deus, Ana!  Você não pesquisou nada! — Ralhou com a morena.

— Pareceu errado investigar a vida dele. — Respondeu envergonhada.

— Não é investigar. É se informar. — Disse simplesmente. — Você poderia estar trabalhando para um psicopata.

— Você não deixaria isso acontecer. — Respondeu colocando sua cabeça no colo da prima. — Podemos, por favor, não falar mais dele?

— Contanto que você não fale mais do Jackson.

— Mas... — Maggie a olhou como se a desafiasse. — Fechado. O que você quer fazer essa noite?

— Eu não quero sair. Que tal um filme?

— Pra mim está ótimo. — Respondeu se levantando para fazer pipoca enquanto Maggie buscava os cobertores.

*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*

Ana acordou na manhã seguinte e tanto ela, quanto Maggie estavam no sofá. Ela olhou no relógio e faltava meia hora para estar no serviço. Se levantou depressa indo para o banheiro fazer sua higiene matinal.

Quando chegou até a casa, já estava dez minutos atrasada e sabia que ele implicaria com isso.

— Ei, Peludo! — O cumprimentou, fazendo carinho no gato que veio recepcioná-la.

— Senhor Smith? — Ela entrou na casa o chamando. — Senhor Smith? — Ao chegar no escritório, a porta estava apenas encostada e ela o viu sentado na poltrona, vestindo um casaco e com uma coberta por cima de suas pernas e torso.

— Senhor Smith? — O chamou já bastante preocupada. O tempo estava frio, mas não o bastante para aquelas roupas. Havia algo errado.

— O que... você... quer? — Perguntou com o queixo batendo pelos tremores e ela se aproximou.

— O senhor está suando. — Declarou aproximando-se e tocou em sua testa, sentindo um formigamento em seus dedos, mas também a alta temperatura da pele dele. — Você está ardendo em febre! Eu vou ligar para o senhor Patz . — Informou, mas antes que ligasse, ele a impediu.

— Não! É a gripe. Eu reajo diferente. — Respondeu ainda tremendo. — Não ligue para meu pai. — Pediu.

— Tudo bem. Eu vou buscar um antitérmico. — Ela foi até o armário da cozinha e pegou o remédio, voltando rapidamente até o escritório. — O senhor consegue andar até o quarto? — Perguntou e ele assentiu.

Assim que se levantou, perdeu o equilíbrio. Ele teria caído, mas ela se colocou na frente servindo de apoio. A sensação de formigamento voltou ainda mais forte enquanto ela o segurava.

 — Tudo bem. Peguei você. — O assegurou e ele se apoiou nela enquanto subiam o lance de escada e ela pôde sentir que ele tremia.

Com custo, eles chegaram ao quarto onde Tyler se apoiou na parede enquanto Ana puxava a coberta. Ele se deitou e ela foi até o banheiro, molhando uma pequena toalha para passar em sua testa e tentar baixar sua temperatura. Ela voltou para o quarto e se sentou na beira da cama, enquanto secava a testa dele.

— Senhor Smith, desde quando está assim? — Perguntou preocupada. Afinal era paga para cuidar dele. — Por que não me ligou?

— Eu estava bem até noite passada. — Murmurou. — Por que estou com sono?

— É o remédio. Deve estar fazendo efeito. — Respondeu ainda passando a toalha em sua testa. — Eu não entendo. O senhor só parecia resfriado ontem. Como pôde ficar tão ruim? — Perguntou sem entender.

— Pensei que meu pai tivesse lhe dito tudo. — Disse suspirando com a sensação da toalha fria em sua pele quente.

— Eu sei que o senhor adoece com facilidade, mas parecia só um resfriado.

— Isso é bom. — Disse quando ela pressionou o pano frio em sua testa.

— Vai baixar sua temperatura. — Respondeu. — Um banho seria melhor, mas o senhor não...

— Então não pode me ajudar? — A interrompeu. — Pensei que fosse minha assistente. — Disse e ela corou. — Ai está... pensei que tivesse perdido o jeito.

— O jeito com o que? — Questionou.

— Eu costumo contar quantas vezes consigo fazer você corar em um dia. — Respondeu simplesmente.

— Isso não é divertido. — Apontou.

— Talvez não pra você. — Ela tirou o pano e colocou sua mão no lugar para sentir a temperatura. Ainda estava quente, mas bem menos.

— A febre está cedendo e logo o senhor vai dormir. Se precisar de alguma coisa é só tocar a campainha. — Disse arrumando seu travesseiro, tentando deixá-lo confortável.

 Ela o deixou no quarto e foi para a cozinha preparar uma sopa para ele. Quando a sopa ficou pronta, ela voltou para o quarto e ele já dormia

— Anabeth... — Por um segundo ela pensou que ele estava lhe chamando, mas viu que ainda dormia. — Muito sal... — Ela continuou o observando e percebeu que ele falava enquanto dormia. — Gato estúpido... Minha poltrona. — Ela se aproximou e colocou o prato de sopa no criado mudo e depois a mão em sua testa, medindo sua temperatura. Ainda estava quente, mas a febre havia baixado.

— Senhor Smith? — O chamou e ele acordou lentamente.

— O que faz aqui? — Disse olhando para ela e depois para o quarto. — Como eu cheguei até o quarto?

— Eu o ajudei a subir. — Respondeu. — Como se sente?

— Ótimo. — Mentiu.

— Sua febre baixou. — Anunciou feliz. — Eu fiz sopa. — Acrescentou mostrando o prato.

— Eu não estou com fome. — Respondeu sem olhar para a comida.

— Mas o senhor precisa comer. — Insistiu pegando o prato com cuidado.

— Você não é minha mãe. — Ralhou. — Não tenho que obedecer a suas ordens.

— Eu não daria ordens se o senhor se alimentasse direito.

— Está bem! — Rugiu tomando a bandeja de sua mão e colocando em seu colo. — Se eu comer isso, você fica quieta?

— Eu prometo. — Disse beijando os dedos cruzados e ele revirou os olhos.
Quando ele levou a primeira colher a boca, ela já esperava alguma reclamação. Por melhor que fosse a comida, ele sempre tinha alguma reclamação, mas dessa vez ela não veio.

— O que? — Questionou secamente enquanto tomava a sopa.

— Nada. — Ela sabia que se dissesse alguma coisa, ele reclamaria por pirraça. Ele terminou a sopa e se ajeitou na cama para voltar a dormir e ela saiu do quarto depois de observá-lo por alguns minutos.

Quando seu expediente estava quase no fim, ela percebeu que não queria ir embora e deixá-lo sozinho, mas não sabia se era permitido ficar. Ela foi até o quarto e o encontrou dormindo e murmurando algumas palavras.

— Gato estranho... — E como se soubesse que falava dele, Peludo entrou no quarto miando.

— Você não é, não. — Ela sussurrou para o bichinho que ronronou em resposta.

— Teimosa... Irritante... — Ele murmurava.

— Acho que agora sou eu, Peludo. — Declarou sorrindo e se aproximando de Tyler, o chamando. A febre havia voltado, a deixando ainda mais preocupada.

Ela pegou o pano e o molhou novamente, colocando na testa dele e fazendo com que ele acordasse e a olhasse confuso.

— Sua febre voltou. Meu horário acabou, mas eu posso ficar aqui se quiser, senhor Smith. — Disse,  e ele fechou os olhos e se encolhendo para perto dela.

 Ela tomou isso como um sim e continuou limpando sua testa.

— Precisa de mais alguma coisa, senhor Smith? — Perguntou gentilmente.

— Tyler. — Ele sussurrou.

— O que? — Perguntou confusa.

— Eu gosto de ouvir meu nome. — Sussurrou enquanto tremia.

— Eu não entendo. — Declarou. — Quando o chamei pelo nome...

— Fiz para irritar você. — Indagou — Queria que você fosse embora.

— Então não gosta de senhor Smith? — Perguntou.

—Não. Eu me sinto velho. — Suspirou ainda com os olhos fechados. — E não vou me livrar de você mesmo. — Ele estava quase pegando no sono.

A toalha que Ana tinha nas mãos já estava quente, então quando ela ia se levantar para molhá-la:

— Não! Por favor, fique. — Suplicou fazendo o coração dela disparar.

— Eu só vou molhar a toalha novamente. Não demoro. Eu prometo. — O tranqüilizou, se levantando e voltando o mais rápido que pôde.

 Ana passou a noite toda ali com ele. Sempre verificando sua temperatura e nunca o deixando sozinho, como havia prometido.


                           CONTINUA...