segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 16




Ana estava nervosa, mas assim que se sentou na cadeira a raiva tomou lugar. Ela não queria ser mal educada com aquele homem. Ela sabia que tinha culpa por não ter contado a verdade, mas Charles podia ter concordado com o fim do acordo e nada daquilo estaria acontecendo.
— Bem, agora que meu filho já sabe... — Começou, mas ela o interrompeu.
— Sim, ele já sabe. Então parece que meu contrato acabou antes do tempo... — Disse se levantando, já cansada daquele assunto.
— Espere um pouco, Ana. Faltam apenas algumas semanas para o fim do contrato. Eu tenho um escritório no centro onde você pode trabalhar. Até o fim do contrato pelo menos. — Disse, desejando que ela ficasse. Ele podia ver o bem que ela fazia ao seu filho e não queria que ela partisse. — Depois você pode ir embora, se ainda quiser. — Acrescentou.
— Eu posso falar com ele? — Perguntou.
— Ele não está na casa. — Respondeu com uma preocupação visível.
— Não está ou não quer receber visitas?  — Rebateu.
— Não. — Respondeu rapidamente. — Ele realmente não está. Ele tem uma casa de campo. Ele foi para lá.
— Sozinho? E se acontecer alguma coisa? E se... — Preocupou-se e Charles a tranquilizou rapidamente.
— Ana, se acalme. Ele não está sozinho. Um amigo meu está com ele. Ele é fisioterapeuta. Tyler está bem. — Assegurou.
— Eu não entendo. Se ele não quer que eu fique por perto, por que ainda estou aqui? O acordo que fizemos foi quebrado. Ele sabe que o senhor me pagou. — Disse se levantando.
 — O acordo não foi quebrado, Ana. Ele não a mandou embora. — Respondeu. — Isso é diferente.
— Não me mandou embora, mas pediu para me mudar de função. Eu fui contratada para ser assistente do Tyler e agora ele me dispensou, assim como fez com as outras. E como o acordo de confidencialidade foi quebrado e eu não terminei o ano...
— Ana, mesmo que você decidisse sair antes do final do contrato, eu cuidaria dá saúde de sua tia. Apesar de como as coisas estão, você trouxe meu filho de volta a vida. — A interrompeu. — Eu sei que você pode não gostar de mim agora, mas eu não sou um monstro.
— Se você tivesse simplesmente aceitado que eu não queria seu maldito dinheiro, Tyler não teria ouvido aquela conversa e eu poderia ter explicado. Então me desculpe, Charles, mas eu acho que você é sim um monstro. Mas está tudo bem, porque eu também sou ruim. O fiz confiar nas pessoas de novo e agora ele está mais machucado do que antes. — Respondeu caminhando até a porta.
— Então você vai ficar? — Perguntou esperançoso.
— Vou, mas apenas porque eu gosto de terminar o que eu começo. — Respondeu batendo a porta.
Ela pegou um táxi e voltou ao apartamento, encontrando Maggie jogada no sofá, lendo um livro de administração.
— Como foi? Ele te mandou embora? — Perguntou curiosa.
— Não. Mas honestamente, eu preferia que tivesse mandado. — Respondeu se jogando no sofá ao lado de Maggie. Completamente cansada.
— O que acontece? — Preocupou-se
— Tyler não pediu para o pai dele me mandar embora. Pediu para que me mudasse de cargo até o final do meu contrato. E eu vou ficar no escritório do doutor Patz.
— E isso é ruim? — Questionou.
— É claro que é, Maggie. Está claro que ele não me mandou embora porque sabe que eu preciso do dinheiro. Eu consigo conviver com a raiva dele, mas não com a pena. — Respondeu cobrindo o rosto com as mãos e murmurando. — Com a pena não.
— Você conseguiu falar com ele?
— Não. Ele não está na casa. — Respondeu ainda com o rosto coberto.
— Já sei. Porque não faz o que a mamãe ensinou?
— O que? Um bolo? — Perguntou, retirando o rosto de entre as mãos, irônica e Maggie revirou os olhos.
— Não. Uma carta. Você se lembra quando brigávamos? E nós não conseguíamos pedir desculpas com palavras, porque acabávamos brigando de novo?
— Louise dizia que não se pode brigar por carta. Que o que as palavras faladas não conseguem, as escritas alcançam.
— É isso, Ana. Escreva uma carta pra ele contando toda a verdade. O seu lado dá história. — Explicou.
— E se ele simplesmente jogar fora?
— É uma possibilidade, mas duvido que faça. Ele pode até ficar bravo quando souber que é sua, mas aposto que vai ficar curioso pra saber o que você tem a dizer.
— Ótima ideia, Maggie. Vou escrever uma carta. Mas o pai dele não vai entregar. — Respondeu.
— Você ainda tem a chave dá casa?  — Perguntou a observando.
— Maggie, isso é invasão! — Respondeu arregalando os olhos.
— Não se ninguém descobrir. — Rebateu. 
— Você é doida, mas eu te amo. — A abraçou.
As duas conversaram por mais algumas horas, até que Ana foi para o quarto escrever a carta, porém depois de um tempo saiu frustrada.
— Já escreveu? — Maggie perguntou surpresa pela rapidez.
— Quem dera. Eu não consigo colocar tudo em uma carta. Eu poderia mandar um manuscrito. — Respondeu pensativa com o queixo apoiado nas mãos.
— É só dizer como se sente, Ana. Não é tão difícil.
— Talvez para você. Eu não costumo dizer como me sinto, Maggie. Eu nunca havia dito eu te amo a ninguém fora da família. A ninguém! Porque desde pequena, me ensinaram que era errado me expor assim, mas por alguma razão, eu sentia isso por ele. Eu sentia isso por ele e disse. E agora ele não quer nem me ver. — Respondeu sentindo uma dor no peito.
— Isso é culpa do Julian, não sua. Não há nada de errado em dizer como se sente, Ana. E se não consegue dizer como se sente em apenas uma carta. Escreva várias. — Respondeu como se fosse simples.
Ana voltou para o quarto e quando finalmente havia acabado de escrever umas 10 cartas, ela escolheu apenas uma para entregar à ele.
Semanas se passaram e ela estava no escritório do Charles. Ela faria aquilo que havia dito, terminaria seu contrato e entregaria o maldito cheque para Tyler.
— Aqui está, Ana. Seu cheque. — Charles entregou o cheque para Ana, que pegou sem nem olhar o valor e enfiou na bolsa. — E sobre sua tia, eu disse que cuidaria dela e é o que estou fazendo. Todas as despesas do hospital, onde ela está se tratando, estão pagas. Obrigado, Ana. — Agradeceu a olhando nos olhos. — Mesmo que você não queira mais me ver, ainda sou muito grato pelo que fez ao meu filho.
— Como ele está? — Perguntou desviando o olhar.
— Bem. A fisioterapia tem dado bons resultados. — Respondeu.
— Isso é bom. Eu tenho que ir agora. Tenho umas coisas para resolver. 
— Está bem. E mais uma vez, obrigado, Ana. — Ele agradeceu e ela o olhou pela última vez, lhe dando as costas e passando pela porta.
Entrou em sua Picape e dirigiu até seu apartamento com o rádio ligado.


*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*
                        
— Maggie, você tem certeza de que não se importa que eu faça isso? — Perguntou novamente para ter certeza de que a prima não se chatearia.
— Não, Ana! O dinheiro é seu. Você trabalhou por ele e além disso, parece que Louise foi escolhida para um tratamento especial. Com todas as despesas pagas. Ela vai ficar bem. — Respondeu tranquilizando a prima.
— Vai sim. — Ela reafirmou, mesmo sabendo quem estava por trás disso.
— Você vai agora? — Maggie perguntou olhando para a carta e as chaves em sua mão.
— Eu tenho que ir. E se ele me odiar depois disso, sei que fiz tudo que podia.
— Ele vai te perdoar. — Disse confiante, segurando sua mão.
— Eu queria acreditar nisso, Maggie. Queria mesmo. — Respondeu suspirando ao sair do apartamento.
Entrou em sua caminhonete e dirigiu até a casa. No caminho, Gertrudes começou a dar alguns problemas, mas ela resolveria no dia seguinte. Estacionou em frente a casa e desceu a olhando. Aquele lugar onde havia passado momentos tão felizes.
Antes de invadir, ela decidiu bater na porta, mas ninguém atendeu. Então ela pegou sua chave e entrou.
Assim que passou pela porta, um miado conhecido veio até ela. Era o Peludo.
— Ele te deixou sozinho? — Perguntou para o gato que ronronou para ela. Ela foi até a vasilha de comida dele e a encontrou cheia. Pelo menos havia deixado comida.
Ela foi andando pelo corredor até que chegou ao escritório. A porta estava fechada e ela não conseguiu abrir. Ana decidiu que deixaria a carta e o cheque no quarto dele.
Subiu as escadas e entrou no cômodo. A cama estava arrumada e o carrinho de oxigênio estava ao lado. Ela se sentou na cama, se lembrando das noites que passaram ali, amando um ao outro e fazendo promessas para o futuro. Promessas de futuro que não se cumpririam. Ela deixou a carta e o cheque em cima dá cama e foi em direção a porta, mas quando a abriu, trombou com um corpo muito familiar.
— Mas que diabos... — Tyler pulou para trás, assustado.
— Algumas coisas nunca mudam. — Comentou, tentando aliviar o clima.
— O que você faz aqui? Como entrou? — Questionou, enquanto tentava normalizar sua respiração.
— Eu... Eu vim entregar uma coisa. — Respondeu corando. — Eu pensei que você estivesse fora. Eu usei minha chave.
— Eu não vejo nada em suas mãos. — Retrucou mal humorado.
— Está na cama. — Apontou para o embrulho que havia preparado e voltou a olhá-lo. — Eu tenho que ir. — Disse se afastando e tentando segurar as lágrimas, que a frieza dele  causava.
— Ana, espere. — Pediu e seu coração pulou em seu peito.
— Sim? — Respondeu se virando e esperando que pedisse para que ela ficasse. Que dissesse que queria conversar, resolver as coisas, e que nada daquilo importava, porque ele a amava também, mas o golpe que ela recebeu com o que ele disse destruiu essas esperanças:
— Pode devolver a chave, por favor?
— A chave? — Perguntou confusa.
— Sim. A chave dá minha casa. Pelas minhas contas o seu contrato acabou e você recebeu seu dinheiro, então já pode seguir em frente. Sem danos.
— Sem danos? — Perguntou magoada. — Quer saber, eu escrevi uma carta, mas não acho que você precise ler. Sabe, Tyler, eu nunca consegui dizer que amava alguém. Nunca havia dito isso a ninguém. A ninguém! Porque desde pequena, me ensinaram que era errado se expor assim, mas por alguma razão eu sentia isso por você. Eu sentia isso por você e te disse.  E fazendo isso, eu não só coloquei meu emprego na reta, como a única chance de cura que minha tia tinha, mas eu coloquei também meu coração. Tudo isso pra ficar com você. 
— Então você nunca pensou em aceitar o dinheiro? Ou achou que eu fosse burro o bastante para não descobrir? — Perguntou chateado.
— Viu? Você não escuta. Parece que você fecha os ouvidos. Eu acabei de dizer que amo você e você me pergunta se era o dinheiro? — Questionou irritada e ele recuou. — Pare de sentir pena de si mesmo por um minuto e pense: será que não tem nada em você que fez com que eu me apaixonasse de verdade? Quer saber? Esquece. Você diz que não suporta o olhar de pena das pessoas, mas você mesmo se olha assim. — Disse passando por ele.
Ela realmente não esperava que ele fosse tão cego ao não notar que ela tinha se entregado de corpo e alma naquela relação. Relação fracassada.

— A propósito, o cheque que seu pai me deu pelos meus serviços está em cima da sua cama, junto com a carta. E é como você disse: sem danos. Aqui está sua chave. — Disse entregando à ele o objeto metálico e saindo, o deixando ali, parado sem saber o que dizer. 
                     CONTINUA...


Capítulo Anterior             Próximo Capítulo