domingo, 10 de setembro de 2017

Ela me deixa louco- Capítulo 11







— Você nunca ficou calada tanto tempo. — Tyler disse.

— Tá bem. Eu não sei o que dizer.

— Isso está me preocupando na verdade. Eu pensei que fossemos conversar. — Tyler acrescentou e Ana continuou olhando para a pizza, muito concentrada.

— Por que eu? — Perguntou sem conseguir olhá-lo.

— Por que você? Você é linda, inteligente e absurdamente teimosa. Não desistiria de mim nem se eu tentasse. Eu entendo se você disser que não sente o mesmo e que eu estou confundido as coisas.

— Não. A questão não é essa. Não é mesmo.

— E qual é então?

— Qual é? Tyler, eu não entendo. Você é... Bem, você. Não é que eu não me ache bonita ou algo assim, mas porra, olha pra você. Você poderia ter qualquer garota. Qualquer uma. Eu sou uma garota comum.  Sou só eu.

— Você já devia saber que não tem nada de comum em você, Ana.

— Primeiro, como você pode pensar que Chris e eu tínhamos alguma coisa?

— Você não pode me culpar por isso. Você sempre fala dele e tem sempre um brilho nos olhos quando fala. E é meio chocante saber que você não tem namorado.

— A maioria dos caras tendem a fugir quando você fala o que pensa.

— Eu continuo aqui. — Respondeu timidamente.

— Você realmente não se importa com meu jeito, não é?

— Não. Eu comecei a gostar dele. E você não se importa que eu seja um pouco rabugento.

— Algumas vezes, muito rabugento. — Frisou. — Viu? Os caras não querem ouvir isso.

— Sorte sua que eu não sou como os outros caras.

— Então? Como ficamos?

— Eu não sei. O que você sente?

— Você é um cara legal.

— Um cara legal? — Ele perguntou erguendo a sobrancelha.

— É. — Ela disse com um sorriso brincando nos lábios. — Ei, já que somos amigos, o que acha de amigos com benefícios?

— Agora eu sei que você está brincando.

— Por quê?

— Amigos com benefício não tem compromisso. E eu não gosto nem um pouco da ideia de outros caras tocando em você.

— Alguém está com ciúmes. — Ela cantarolou.

— Agora você parece seu amigo Chris.

— Sobre isso. O quanto você ouviu?

— Antes eu quero sua resposta.

— Eu respondo se você responder.

— Com você é sempre assim, não é? Sempre tem um se. Eu perguntei primeiro.

— Eu cresci com a Maggie. Posso fazer isso o dia todo. Só vai ter a sua resposta quando eu tiver a minha.

— Está bem. Eu ouvi sobre você me chamar de odiador de gatos, mas que você me acha um cara muito legal, mas a parte mais interessante é sobre seus sonhos. Agora pode falar.

— Está bem. Você é um cara muito legal e eu meio que passei a gostar de você, mas minha cabeça não processou muito bem e meus sonhos tem sido... Inadequados.

— Inadequados?

— Eu não vou contar, se é isso que você quer.

— Tudo bem. Então também não conto os meus. — Ele disse com um sorriso nos lábios.

— O que? — Ela perguntou chocada.

— Próxima pergunta.

— Próxima pergunta coisa nenhuma. Como assim, os seus?

— Só você pode ter sonhos? — Perguntou com um sorriso torto, que a fez corar. — Eu conto se você contar.

— Não. Não mesmo. Próxima pergunta.

— Sua chata.

— Olha só. Aprendeu alguma coisa comigo. — Lhe mostrou a língua e ele revirou os olhos.

— Está bem. Próxima pergunta. O que você diria se, hipoteticamente, eu te pedisse em namoro?

— Eu diria que por mais tentadora que fosse a ideia, isso é bem rápido e além disso eu sou sua assistente e isso não seria certo.

— Então esse é o problema? Por que eu me lembro de alguém falando que não trabalhava para mim e sim para o meu pai.

— Olhando por esse lado. — Colocou um dedo sobre o queixo, refletindo.

— Então o problema seria só o tempo.

— Basicamente. — Concordou.

— E não os meus problemas?

— Francamente, Tyler, você acha que eu ligo para isso? Você anda com um pouco de dificuldade. Grande coisa. Mesmo que você tivesse três olhos e um mamilo na testa eu ainda gostaria de você. — Ela disse e ele começou a rir. — Além disso, eu já disse, essa cicatriz te dá um ar sexy. Vamos fazer assim. — Umedeceu os lábios. — Começamos isso, mas se não der certo, não quero perder nada que construímos até aqui, está bem?

— Parece muito justo.

— Então se não der certo, nós continuamos amigos. Promete?

— Eu prometo.

— Ótimo, porque mesmo que você dissesse não, eu ainda ia querer beijar você. — Ana disse, se aproximando dele e o beijando.
Algumas semanas se passaram e Ana queria tirar Tyler de casa, mas ele se recusava a sair com ela.

— Vamos... Vai ser divertido.

— Você disse isso da última vez.

— Podemos pegar um taxi. Eu só quero sair com meu namorado. Isso é errado? — Perguntou piscando os olhos para ele.

— Usar a palavra namorado e piscar esses olhos assim é jogo sujo. Você sabe que eu faço quase tudo que você pede quando fala assim

— Então vamos sair?

— Eu disse quase tudo. Então eu acho que não.

— Por favor...

— Não.

— Que tal um acordo?

— Um acordo? — Ele perguntou curioso.

— É. Uma volta. Podemos caminhar. Nada de carros, transito ou guaxinins. — Sorriu. — Eu espero. — Acrescentou, tirando a máscara sorridente e trocando por uma pensativa.

— E o que eu ganho em troca?

— Além do prazer da minha companhia?

— Isso eu tenho todos os dias. E aprecio muito a propósito. — Sorriu.

— Quando você começou a ser tão fofo? — Ela perguntou e ele riu. — Tá. Eu fico uma semana sem fazer perguntas.

— Só uma semana?

— É o máximo que eu agüento.

— Você vai desistir se eu disser que não?

— Provavelmente não.

— Como consegue que eu faça tudo que você quer?

— Eu não consigo que você faça tudo que eu quero.

— Está bem. — Ele disse e ela gritou de alegria. — Uma volta. Apenas uma volta.

— A menos que você queira andar mais. — Disse sorrindo e ele revirou os olhos.
 Eles já estavam quase no final da volta e Ana estava na frente.

— Você é muito lento. — Ela zombou.

— Eu não sei se você reparou, mas eu não costumo caminhar muito. Você tem as duas pernas em ótimo estado para caminhar e ainda sim você vive tropeçando por aí e eu não falo nada.

— Ei...

— Não é legal quando te mostram seus defeitos, não é?

— Eu não disse por mal. — Respondeu baixando os olhos e Tyler percebeu que havia a magoado.

— Eu sei que não. Desculpe.

— Vem. Já terminamos a volta. Estamos quase chegando na sua casa. — O puxou pela mão.
Eles entraram na casa e Ana ainda estava quieta.

— Ei. — Tyler disse, segurando o braço dela gentilmente e ela o olhou. — O que você tem?

— Nada.

— Você está chateada. — Ele afirmou.

— Não.

— Ana...

— Talvez um pouco. Quando eu disse que você era lento...

— Você não quis me ofender, mas ainda sim me chateou, mas eu não tinha que ter sido grosso. Eu sei que você não faz por mal. — Ele disse e ela ainda não o olhava. — Olha, eu não queria ter dito aquilo, mas tente entender meu lado.

— Eu estou tentando.

— Eu não queria magoar você com o que eu disse. Talvez você tivesse razão quando falou que devíamos ir devagar. — Ele disse.

— Você... Você está mudando de ideia? Sobre nós? — Perguntou ainda sem olhá-lo nos olhos.

— Não! Estar com você tem sido a coisa mais certa em minha vida, Ana, mas isso me assusta um pouco.

— Por quê? — Perguntou olhando em seus olhos e podia ver dor neles.

— Porque a última vez que abri meu coração, ela me deixou e se matou logo depois. E honestamente, eu nunca tive tanto medo que a história se repetisse. — Tyler tentou disfarçar a falta de ar que estava sentindo.

— Você está bem?

— Estou. — Respondeu ofegante.

— Tem certeza? — Perguntou e ele não respondeu. — Tyler? — Ela ficou assustada.

— Não.

— O que você tem? — O esforço físico da caminhada havia desencadeado uma crise respiratória. — Tyler? Está me assustando.

— Cha... Charles.

— Vou ligar para ele. — Ana disse, o ajudando a sentar e pegando o celular. — Alô? Doutor Patz? Aqui é a Ana.... Eu não sei, ele estava bem... — Pausa. — Eu não sei. Está bem. Tyler, ele pediu para você mostrar o nível da crise. — Ana pediu e Tyler levantou seis dedos. — Ele levantou seis, Charles, o que eu faço? — Perguntou assustada. — Gondola? Onde eu... Tá bem. Eu vou buscar. — Ela correu para o andar de cima e ao entrar no quarto de Tyler, encontrou um pequeno carrinho ao lado da cama.
Assim que o pegou ela o levou para baixo.

— Charles, o que eu faço com isso? — Pausa. — Regulagem? — Aguardou a breve explicação que se seguiu. — Tá bom. — Ela entregou a máscara para Tyler, que começou a puxar o ar.
Parecia estar funcionando. Ela se despediu de Charles e prometeu ligar mais tarde.

— Tyler? — Ela o chamou e ele assentiu. Ele parecia respirar de novo e ela se acalmou. Ele apontou para o andar de cima e Ana o ajudou a ir para o quarto. Assim que ele estava em sua cama, tirou a máscara. — Não. Coloca de volta.

— Está tudo bem, Ana. Eu estou bem.

— Você me assustou. Você não estava respirando.

— Eu estou bem agora. Só preciso ficar um tempo com a máscara. Você pode ligar para o meu pai e dizer que está tudo bem? Não quero que ele venha aqui. — Ele pediu, recolocando a máscara.

— Tudo bem. Eu deixei meu celular lá em baixo. Eu volto logo. — Ela disse e ele deu um sorriso fraco.

— Doutor Patz? Sou eu.

— Olá, Ana. Como meu filho está? Ele consegue respirar? — Perguntou preocupado.

— Sim, ele está bem agora.

Isso é bom. — Ficou aliviado. — Acha que eu preciso ir aí?

— Não. Ele disse que está bem. Eu não entendo. Ele estava bem. Disse que se sentia bem disposto.

— Já é a terceira crise nesses cinco anos.

— Eu devia ter percebido. Devia...

— Ana, você não tinha como saber. Eu como médico não tenho. Essas crises simplesmente acontecem.

— Por que ele tem essas crises? Só fomos andar um pouco. O que ele tem exatamente?

— Depois do acidente, nós fizemos vários exames para saber até onde as sequelas foram, e uma delas foi no pulmão. Ele tem um edema pulmonar.  Quando ele recebeu alta do hospital, ele precisava de um gondola respiratória, mas depois de algum meses ele simplesmente não precisou mais dela.

— Não precisou ou não quis mais?

— Um pouco dos dois. Tyler é meu filho, mas é adulto. Eu não poderia obrigá-lo. Então ele não a usa o tempo todo. Apenas a noite.

— Eu nunca tinha visto até hoje.

— É claro que não. Ele mantém o equipamento muito bem escondido e só o coloca quando está no quarto. Não gosta que o vejam com ela.

— Mas isso é loucura. Se ele precisa da gondola para acabar com essas crises por que não usa? Pelo que vão pensar dele?  Isso é ridículo.

— Eu amo meu filho, mas ele não é muito sensato com alguns assuntos.

— E o que vai acontecer agora? — Ana perguntou.

— Contanto que ele descanse e use a máscara, ele ficará bem.

— Eu vou cuidar disso. Obrigada, doutor Patz. Se acontecer alguma coisa eu volto a ligar.

— Obrigado, Ana. — Ele disse e desligou.
Ana voltou para o quarto e encontrou Tyler sentado na cama com a máscara.

— Pode, por favor, não me olhar assim? — Pediu a fitando.

— Assim como?

— Como se eu estivesse morrendo.

— O que você tem na cabeça? Se precisa dessa coisa por que não usa?

— Pelo jeito você já conversou com meu pai. E não precisa gritar como se eu fosse uma criança. — Fechou a cara.

— Não preciso gritar? — Disse irritada. — Eu te trato como uma criança quando você age como uma e não faça essa cara. — Semicerrou os olhos. — Por que não disse nada? Você me assustou como um inferno hoje. — Disse com lagrimas nos olhos.

— Ei... Não chora. — Pediu com culpa nos olhos por fazê-la chorar. — Vem aqui. — A chamou estendendo a mão.

— Coloca a máscara. Você precisa dela. — Disse fungando.

— Preciso mais de você. Eu vou contar o porquê que eu não disse nada. Vem aqui. — Estendeu a mão outra vez e ela foi se sentar ao lado dele, se aconchegando em seus braços.

— Eu meio que preciso disso.

— Eu percebi. E por que você não usa? — Ela perguntou baixinho.

— Porque eu não gosto de como as pessoas me olham quando eu uso. Como você estava me olhado quando entrou no quarto.

— Como eu estava olhando?

— É. Como se eu estivesse morrendo. Com pena.

— Eu não tenho pena de você, Tyler, eu fiquei assustada. Como você ficaria se eu não conseguisse respirar e você não pudesse fazer nada? — Perguntou, o fazendo refletir.

— Eu não pensei por esse lado. Mas os olhares me incomodam.

— Mas você não precisa disso para respirar?

— Não exatamente. Ele deixa minha respiração mais leve. Mais fácil.

— Mais fácil?

— É como... Se você prender a respiração por muito tempo e soltar, você respira com dificuldade, certo?

— Acho que sim.

— É como se eu vivesse prendendo e soltando a respiração.

— Mas se você usar isso? Você respiraria normalmente?

— Sim. Mas eu ainda não gosto.

— Então prefere viver sem respirar direito pelo que os outros vão pensar?

— Não. Sim. Olha, é complicado.

— É. Você é muito complicado. Mas eu ainda adoro cada parte disso. — Ela disse fungando e se aconchegando mais nele. — Eu gosto quando você sorri das minhas palhaçadas. Eu adoro como você consegue... Passar de rabugento pra fofo em menos de dois minutos. Eu adoro como você não liga para minhas perguntas, por mais constrangedoras que sejam ou como você se perde quando está tocando piano. Como se você se encontrasse enquanto está sentado tocando... Eu amo... Você. — Ana disse e Tyler a olhou. — Merda. Eu amo você.

— Ana... — Ele sussurrou, mas ela não conseguia olhá-lo.

— E pelo seu passado, eu te conheço bem pra saber que vai precisar de tempo e eu não espero que diga nada agora e...

— Eu também te amo. — Tyler disse, fazendo Ana se calar. — Já está escurecendo. Você pode ficar? — Ele pediu.

— Posso. — Respondeu colocando a cabeça no vão do pescoço dele e inalando seu cheiro.

Depois de algum tempo, Tyler adormeceu e Ana se levantou indo até a cozinha pegar um pouco de água. Quando voltou, Tyler ainda dormia. Ele parecia um anjo. Ela deitou ao seu lado, mexendo em seus cabelos.

Ela não sabia como isso acabaria, mas tinha uma certeza. Precisava falar com o doutor Patz e cancelar o acordo que eles haviam feito para que ela ficasse ali com ele. O mais rápido possível. Se Tyler descobrisse, pensaria que ela estava com ele pelo dinheiro e ela sabia muito bem que não era isso. Ela o amava. Com cada fibra do seu ser, ela o amava, e por algum fenômeno da natureza, ele a amava também. Ela não estava disposta a colocar isso a perder. Por quantia nenhuma.







                      CONTINUA...