domingo, 27 de agosto de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 09






— Pronto? — Ana perguntou.
— Não, mas eu não tenho escolha.
— Não tem.
— Me diz de novo, por que não podemos ir de taxi mesmo? — Questionou, olhando para as chaves na mão dela.
— Porque eu sei onde fica, mas não sei dizer o endereço.
— Como é que você anda sozinha por aí? — Tyler olhou para ela.
— Ei, eu sei me virar muito bem sozinha. Só porque eu não conheço os nomes das ruas, não quer dizer que não saiba andar por aí. Agora vamos. — Disse se aproximando de seu carro.
— Eu acho que não. — Respondeu olhando para o carro dela.
— O que? Fizemos um acordo.
— Isso foi antes de ver seu carro.
— Qual o problema com meu carro?
— Com ele nenhum. Já esses amassados nele. Foram parar aí por algum motivo.
— Ei. Trato é trato. Eu comi aquele peixe cru e agora vamos sair.
— Você está em cima da guia. — Ele apontou para o chão.
— Em minha defesa, eu tentei arrumar.
— Quando? — Perguntou a desafiando, precisava fazer ela desistir do passeio.
— Olha, esse era o nosso acordo. Eu ia comer aquilo e você sairia.
— Eu estou aqui fora. Eu sai.
— Na calçada não conta. Você não pode simplesmente confiar em mim? — Ele a olhou e suspirou.
— Não faça eu me arrepender.
— Vai ser divertido. — Garantiu saltitante quando ele entrou no carro.
— Você por acaso não tem aqueles cintos de quatro pontos não, né?
— Como aqueles de montanha russa?
— Exatamente.
— Muito engraçado. — Revirou os olhos.
— Não custava perguntar.
— Quer soltar a porta? Ela não vai cair.
— Acredite, essa não é minha preocupação. Aqueles amassados por outro lado.
— Eu não bati em ninguém!
— Eu não disse isso, mas eles ainda estão lá.
— Será que dá pra relaxar? Eu nem liguei o carro ainda e você está todo encolhido aí... — Ana disse dando partida, mas ela soltou a embreagem muito rápido e o carro morreu.
— Misericórdia. — Tyler disse afundando mais no banco.
— Foi mal. Escapou.
— É isso. É assim que eu vou morrer. — Disse olhando para frente
— Deixa de ser dramático. Nós só vamos até o centro. Você não vai morrer.
— Tudo bem. — Tyler respirou fundo, tentando se controlar. — Podemos ir.
Ana dirigiu por dois minutos até que Tyler deu um grito.
— Devagar! Cuidado!
— Que foi? — Perguntou assustada.
— Você está correndo. Vai devagar.
— Eu estou devagar.
— Não está, não!
— Para de gritar. É difícil me concentrar com você berrando do meu lado.
— ‘Tá bem. Eu não vou gritar. — Disse, se afundando mais no banco e segurando a porta com mais força.
Ana continuou a dirigir.
— Ah! Para! Olha o caminhão, olha o caminhão!
— Eu estou vendo! É um caminhão, Tyler, pelo amor de Deus. — Respondeu gritando.
— O motoqueiro! Olha a rua! A sua esquerda! — Tyler berrou quando o carro deu um solavanco.
— O que foi aquilo? — Ana perguntou, se virando para trás.
— Olha pra frente! — Gritou de novo, desesperado. — Você atropelou um guaxinim? — Perguntou olhando para trás, completamente encolhido no banco.
— Ai, meu Deus.
— Olha o sinal vermelho! Está chegando.
— Para de gritar comigo!
— Para o carro! Para o carro, para! — Ele gritou e ela freou de uma vez. — Coloca no ponto morto, pelo amor de Deus. — Praticamente implorou, respirando com dificuldade.
— Se você parasse de gritar ajudaria.
— Eu... Eu não estava gritando. — Retrucou, tentando respirar.
— Tyler, tudo bem? Você ‘tá meio verde.
— Por que será, hein? — A olhou de esgueira. — Me diz que estamos chegando.
— É logo ali na frente.
— Tudo bem. — Assentiu, segurando no banco e na porta.
— Vai ser divertido.
— Você disse isso quando saímos da minha casa. Não está sendo muito divertida essa experiência de quase morte.
— Você sempre foi exagerado assim? — Perguntou, seguindo pela rua e estacionando logo em frente.
Quando ela foi arrumar o carro na vaga bateu em um cone.
— Como diabos te deram uma licença?
— Ei, eu não sou tão ruim.
— Ah, não? Pergunte ao guaxinim, ah, espera! Não pode, você o atropelou!
— Ei, eu teria visto se você não gritasse o tempo todo.
— Foi pra isso que você me tirou da minha casa? Para tentar me matar?
— Não. Eu queria que hoje fosse divertido, não era pra gente brigar. E para de dizer que eu quero te matar. Eu tinha tudo planejado para hoje. — Disse com lagrima nos olhos. — Mas você não para de gritar, e eu...
— Ei... Você está chorando? Por que ‘tá chorando? — Ele perguntou olhando preocupado.
— Eu não estou chorando. — Ela respondeu limpando o rosto.
— Eu acho que está, porque eu acho que vi uma lagrima aí.
— Eu só queria que você se divertisse hoje. Já que você não sai há tanto tempo. Eu não queria brigar. Eu odeio saber que faz tempo que você não sai e que não costuma andar no transito. Eu sempre estrago as coisas.
— Ei... Está tudo bem.  Talvez eu tenha me desacostumado com o transito da cidade. Com tanto que a gente volte de taxi, vai ser divertido hoje. — A assegurou, fazendo-a olhá-lo e abrir um pequeno sorriso, que Tyler prontamente devolveu. — Isso é música? — Perguntou olhando para o parque.
— É. Vai ter um grande festival de música clássica aí no parque. Eu pensei que você fosse gostar. Tyler desceu do carro e foi em direção ao parque, com Ana ao eu lado.
— O que é isso? — Ele perguntou olhando para as coisas que ela carregava.
— Nosso almoço.
— Então é um piquenique?
— Mais o menos. — Respondeu sorrindo.
— Eu não vou me desculpar por gritar.
— Eu também não. Mas não diga mais que eu quero matar você. Está bem?
— Está bem. Mas você sabe que é um risco para... — Ela o olhou e ele parou de falar. — Está bem. Não está mais aqui quem falou.
— Vem pra cá. Ana estendeu a toalha e os dois sentaram.
— Parece um bom lugar. — Comentou, olhando ao redor e depois descansando seu olhar sobre o rosto contente de sua assistente biruta – que não parava de sorrir.
— E é. Dá para ouvir a música de fundo, mas não as pessoas. E ainda tem a sombra da arvore.
— Parece que você pensou em tudo. Já veio aqui antes?
— Venho aqui todo ano.
— Todo ano?
— É. Minha tia me trazia quando eu era pequena.
— E onde ela está?
— Em casa. Ela não saiu muito. Está com alguns problemas de saúde.
— Que tipo de problemas?
— Do tipo que precisa de uma cirurgia.
— Então ela é um dos motivos pra você ter parado a carreira de escritora?
— É um motivo, mas eu faria de novo. Sem pensar. — Respondeu e mordeu o lábio, ao olhar para ele.
— Pode falar.
— O que?
— O que você quer perguntar desde aquele dia que falamos de começarmos a ser amigos. Pode perguntar.
— Como você...
— Você morde o lábio sempre que quer fazer uma pergunta.
— Tem prestado bastante atenção nessa parte do meu rosto, hein? — Ela comentou e ele corou. — Está bem, viu? — Apontou para si mesma. — Sem filtro. — Eles riram, ela realmente não pensava antes de falar. — Tudo bem, eu tenho uma pergunta, mas se quiser colocar no tópico de assuntos proibidos eu vou entender.
— Fala de uma vez.
— Um exemplo de educação, senhoras e senhores. — Ana disse apontando para ele e aplaudindo, ele revirou os olhos. — Tudo bem, é sobre sua ex. — Disse por fim e ele suspirou.
— Eu sabia que não ia demorar.
— Tudo bem se não quiser falar.
— O que você quer saber?
— Maggie disse que ela era modelo e que o acidente a deixou sem o movimento das pernas. E depois que a carreira dela caiu, não se teve mais notícias sobre ela.
— Eu me surpreenderia se tivesse notícias.
— O que aconteceu?
— Eu só vou falar disso porque estamos tentando essa coisa de sermos amigos, mas não quero mais falar disso depois, ok? – Ele perguntou e ela assentiu. — Alguns meses depois que recebi alta, o advogado de Allyson me procurou com os papeis do divórcio. Eu tentei me reaproximar dela, mas ela nunca queria me ver. Um ano depois a mãe dela me procurou, disse que por minha culpa ela havia perdido a filha.
— Só porque alguém não pode andar, não significa que não possa viver. A falta de movimentos não mata ninguém.
— Não, mas tomar vários comprimidos e se afogar na banheira sim. — Tyler disse olhando para o palco de onde vinha a música.
— Ela... Ela se matou?
— Não suportava viver daquele jeito e encontrou um jeito de acabar com aquilo.
Ana o olhou sem saber o que dizer.
— Os pais dela me culpam até hoje. Dizem que se não fosse pelo acidente, a filha deles ainda estaria viva.
— Isso é ridículo. Não podem culpar você por isso. Foi decisão dela.
— Tudo bem. Mais alguma pergunta, senhorita sem filtro? — Tyler perguntou e ela corou. — Aí está. — Ele disse apontando para o rosto de Ana.
— Não. Acho que não.
— Minha vez então.
— Sua vez de que?
— De fazer as perguntas.
— Quando começamos a jogar o jogo da verdade aqui?
— Não estamos jogando. E não teria a menor graça de jogar com você.
— Por que não?
— Porque como você mesma disse, você não tem filtro. Sempre fala exatamente o que pensa. Então nunca deve mentir.
— Eu não gosto de mentiras, grande coisa.
— Você está fugindo do assunto.
— Você nem começou um assunto.
— Que seja. Eu te contei uma coisa sobre meu passado. Quero saber sobre o seu.
— E por que eu contaria?
—Porque estamos tentando ser amigos. — Respondeu presunçoso.
— Jogo sujo, Smith. Jogo sujo.
— Comece a falar.
— Pode ser mais especifico?
— Está bem. Fale sobre seus amigos.
— Isso é fácil. Tem a Maggie que é minha prima, mas também minha melhor amiga e irmã. Ela é pequena, mas quando fica irritada consegue deixar até o Chris com medo.
— Chris? — Ele perguntou erguendo a sobrancelha.
— É. Ele que vai arrumar sua poltrona. Ele é ótimo. O dele assusta algumas pessoas, e também as tatuagens que tem pelo corpo, mas ele é muito doce. Eu o conheci quando me mudei para casa da minha tia. Ele é provavelmente o único cara com que eu consigo me abrir. Ele é divertido, é protetor e provavelmente tem o abraço mais forte que eu conheço. — Ela disse e Tyler olhou para baixo.
— O que sua tia tem? — Ele perguntou não querendo mais ouvir sobre o tal Chris, que deveria ser o namorado de Ana.
— São duas perguntas. Quando será minha vez?
— Sua pergunta foi muito particular. Eu tenho direito a duas.
— Quem disse isso?
— Eu estou dizendo.
— E quem disse que você manda?
— Eu sei que você esquece quase sempre, mas eu sou seu patrão.
— Não é, não. — Respondeu sorrindo e ele a olhou confuso. — Você é filho do meu patrão. Eu fui contratado pelo senhor Patz. Se você tivesse me contratado, teria me demitido no dia que eu levei o peludo para sua casa. E então nós não estaríamos aqui agora.
— Então tudo bem, espertinha. Sorte sua que meu pai te contratou. — Disse, a fazendo sorrir.
Algumas horas se passaram e eles ficaram lá, comendo, conversando e ouvindo a música.
— Está tarde já. Vou chamar um taxi.
— Eu posso te deixar em casa. — Ela disse.
— E passar por aquilo de novo, eu prefiro... Quer dizer... Eu posso ir de taxi. Já passou do seu horário.
— Não vai andar de carro comigo de novo, não é? Entendi. Não me ofendeu. Tudo bem, então. — Ela disse se levantando e oferecendo sua mão para ajudá-lo a se levantar. Ele olhou para a mão dela e suspirou, aceitando a ajuda sabendo que não se levantaria sozinho, mas aceitar a ajuda a fez sorrir.
— Eu já vou indo. — Ela disse quando o taxi dele chegou.
— Tudo bem. Vejo você amanhã. — Se despediu, indo em direção ao táxi.
— Ah, espera. Quase esqueci. — Ela tirou uma caixa da bolsa. — Feliz aniversário.
— Meu aniversário foi há três meses.
— Eu não conhecia você há três meses. Será que não dá pra aceitar nada sem reclamar? — Perguntou arqueando uma sobrancelha e ele sorriu, abrindo a caixa.
— Um celular?
— É. Todo mundo precisa de um. E sabe, só pro caso de você precisar de alguma coisa ou ficar doente ou se eu tiver alguma pergunta absurda.
— Entendi. Obrigado.
— Bom, eu já vou. Aliás, sua pessoa favorita no mundo está como o número um. — Ela disse e ele apertou o botão, fazendo o telefone dela tocar. — Viu. Sua pessoa favorita. — Sorriu de orelha a orelha, convencida, fazendo-o rir. — Agora eu vou mesmo. Até amanhã.
— Até amanhã, Ana.

                           CONTINUA...