domingo, 13 de agosto de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 07









Tyler olhou para a porta, esperando que ela voltasse para se desculpar, mas no fundo ele sabia que ela não voltaria. Não para se desculpar pelo menos e quando ela não voltou nem para ofendê-lo, ele soube que havia passado dos limites.

O dia se arrastou e Tyler ficou no escritório lendo. Já estava quase na hora dela ir embora, mas ela não tinha aparecido depois do almoço. Ele estava quase pegando no sono quando ouviu uma batida na porta.

— Eu já vou, senhor Smith. Precisa de mais alguma coisa? — Ela perguntou e quando ele ouviu o senhor Smith , ele soube que havia mesmo ido longe demais.

— Não. Estou bem. — Ela já estava saindo quando ele a chamou. — Anabeth?

— Sim?

— Desculpe pelo meu comentário na hora do almoço. Eu queria irritar você e passei dos limites.

— Realmente passou. Quando eu disse que passaria a noite aqui, minha intenção não era...

— Eu sei. Eu sei que sua intenção era que eu me sentisse melhor. Nada alem disso. — Ana olhou para ele e suspirou, se aproximando.

— Olha, meu contrato é de um ano e você não vai se livrar de mim. Então não seria muito mais fácil se tornássemos a convivência agradável?

— Agradável? Como o bonitinho? — Perguntou com um sorriso brincando nos lábios.

— Eu diria que podemos ser amigos, mas isso não depende de apenas um lado, Tyler. Já ouviu a expressão quando um não quer, dois não brigam? Eu não posso ser sua amiga sozinha. — Disse com uma expressão séria.

— E como isso funcionaria?

— Isso o que?

— Esse projeto de amizade. Como funcionaria?

— Um bom começo seria você não reclamar da comida o tempo todo. E sua língua não cairia se você dissesse obrigado algumas vezes.

— Ei, eu agradeci de manhã.

— E me insultou a tarde. Então não conta.

— Eu já me desculpei.

— Eu sei. Não estou brigando, apenas fazendo uma observação. Você não pode me insultar, pedir desculpas e me ofender de novo, Tyler. Não vamos conseguir ir para lugar nenhum assim.

— Eu entendi. E já que não vou me livrar de você...

— Não vai. — Concordou sem hesitar.

— Já que não vou me livrar de você — continuou —, tenho uma pergunta. Você gosta desse emprego?

— Claro. — Respondeu olhando para baixo e mexendo no cabelo.

— Quer tentar uma resposta mais convincente?

— Tudo bem, não é o emprego dos sonhos, mas não é ruim.

— Então essa não é a carreira que você queria?

— Não exatamente.

— E qual é?

— Escritora, mas não é uma área com muitas oportunidades.

— Então desistiu e virou cuidadora?

— Eu não desisti. E não sou uma cuidadora. Sou sua assistente.

— É, isso aí. — Balançou a mão no ar com desdém. — Então desistiu de ser escritora para virar assistente?

— Eu não desisti.

— Mesmo? Eu não vejo você escrevendo ou publicando livros.

— Por melhor que seja a sensação de escrever ou publicar um livro, ter um teto sobre a cabeça e as contas em dia é melhor.

— Então é pelo dinheiro?

— É um motivo.

— Um?

— Olha, é complicado. Por que está fazendo essas perguntas?

— Só você pode fazer as perguntas? — Rebateu com um sorriso torto que deixava a cicatriz em seu rosto ainda mais evidente.

— Eu não faço muitas. E não sobre o porquê da sua escolha de profissão. Você era pianista, não era? Por que escolheu essa carreira? Eu não vejo você tocando.

— Tudo bem. Acho que já chega de perguntas.

— Você pode perguntar sobre minha vida profissional, mas eu não posso perguntar sobre a sua?

— Você não vai deixar isso, não é?

— Já estou aqui há três semanas. Você deveria saber que não. — Sorriu presunçosa. — Mais cedo, eu estava cantarolando uma música. — Comentou.

— Greensleeves.

— Você conhece?

— Claro que conheço. Era uma das minhas favoritas.

— Era?

— Era. No passado. Não gosto mais.

— Dela?

— De música.

— Não gosta? É difícil imaginar um dia sem música. Eu sempre começo meu dia com música. Devia experimentar... Se quiser. — Ela disse lembrando-se do que ele havia dito sobre todos saberem o que é melhor para ele e que as pessoas sempre tomavam decisões por ele.

— Não, obrigado. Prefiro o silêncio.

— Mas você era, não era? Um pianista?

— Eu era. No passado.

— E você gostava?

— Adorava. A música fluindo, os sons saindo das teclas sem tropeçar. Os aplausos de admiração quando eu terminava as apresentações sem erros. — Ele disse com um brilho diferente no olhar. — Era... Era como se eu me perdesse sempre que tocava piano.

— Não pode mais tocar ou simplesmente não quer?

— Eu não quero fazer uma coisa em que não terei mais 100% de sucesso. O acidente me tirou isso também.

— O senhor Patz nunca contou. Como...

— Você não estava indo? Por mais que estejamos tentando essa coisa de amizade, não acho que você queira passar outra noite aqui.

— Eu estava. — Assentiu.

— Então guarde sua curiosidade e vá para casa. — Disse voltando a ser o grosso de sempre e Ana saiu de lá sabendo que não conseguiria mais nada com ele.

— Eu vou, mas antes... Por que você faz isso?

— Isso o que?

— Isso. Você baixa a guarda, mas se alguém se aproxima você levanta o muro de novo e volta a se fechar.

— Acho que é mais fácil assim. É melhor você ir.

— Mas...

— Eu vou me deitar. — A cortou, já se levantando e mostrando que a conversa havia acabado.

— Está bem. Até amanhã, Tyler.

— Até amanhã, Anabeth.

— Posso pedir uma coisa? — Ela perguntou, o fazendo suspirar.

— O que?

—Você disse que não gosta de ser chamado de senhor Smith . Porque faz com que se sinta velho, certo?

— Disse.

— Então pode me chamar de Ana? Sempre que escuto meu nome completo eu me lembro do meu pai e eu sinto como se tivesse feito alguma coisa errada.

— Qual o problema de se lembrar do seu pai? Ele...

— Não. Ele não morreu. É só... Complicado.

— Complicado como? – Perguntou.

— Apenas complicado. Não quero falar sobre isso.

— Então você pode fazer perguntas sobre mim, mas eu não posso fazer sobre você?

— Você não está fazendo perguntas sobre mim. Está sendo intrometido e fazendo perguntas sobre meu pai.

— Quem está sendo arrogante agora? — Perguntou sério e ela ficou sem palavras.

— Eu... Eu não gosto de falar ou me lembrar dele. Ele não é uma boa pessoa. É isso.

— Não é uma boa pessoa? Ele tem algum problema ou algo assim?

— Pode, por favor, parar de falar disso? — Perguntou, baixando os olhos e Tyler decidiu que era melhor acatar ao seu pedido.

— Posso. Então que tal isso: eu não faço perguntas sobre seu pai e nem nada disso, se — frisou — você não perguntar sobre alguns problemas óbvios. — Apontou para a cicatriz e a perna com problemas.

— Feito.

— Ótimo. Agora você pode ir. — Disse e ela revirou os olhos.

— Boa noite, Tyler.

— Boa noite, Ana. — Respondeu e ela sorriu, indo embora.



                           CONTINUA...