domingo, 16 de julho de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 03




Atualmente...
Ana acordou animada com seu primeiro dia de trabalho. Seu primeiro dia oficial. Pela noite passada ela sabia que ele seria um desafio, mas não permitiria que nada à abalasse, então vestiu sua melhor roupa e partiu rumo à mansão Smith .
— Bom dia senhor, Smith . — Cumprimentou, fazendo Tyler saltar na cozinha.
— Como diabos você entrou aqui?
— O seu pai me deu uma cópia da chave e como o senhor disse que não estaria acordado a essa hora, eu vim preparar o café.
— Eu já disse que não preciso de babá.
— E eu já disse que não sou sua babá. Sou sua assistente.
— Que seja! — Retrucou mal humorado, saindo da cozinha e indo para o escritório.
Alguns minutos depois ele ouviu portas batendo e se levantou para ver o que estava acontecendo.
— O que você está fazendo agora?
— Checando a despensa. O senhor Patz disse que fazia mais de um mês que o senhor não tinha uma assistente, eu imaginei...
— Imaginou que minhas despensas estivessem criando teias de aranha? Eu sou perfeitamente capaz de fazer minhas compras, senhorita Miller. Agora, será que pode parar de bater essas malditas portas? Igual a todas as outras noites, não dormi, então estou tentando fazer isso agora e seria de grande ajuda se você ficasse quieta. — Discursou e saiu mancando, com a ajuda da bengala, de volta para o escritório.
— Grosso. — Ana murmurou quando ele bateu a porta.
Agora que já tinha certeza que a despensa estava cheia, ela não sabia o que fazer, já que ele não havia lhe dado uma agenda nem nada. Então o mais silenciosamente que conseguiu, abriu os armários para preparar o almoço.
Ela nunca havia sido uma boa cozinheira, mas sabia fazer algumas coisas. Quando terminou, foi até a sala de jantar e arrumou tudo.
Depois foi até o escritório e deu leves batidas na porta, mas ninguém respondeu, ela a abriu vagarosamente e encontrou Tyler dormindo em uma poltrona. Chegou mais e mais perto, o observando. Quase admirando. Ele era um homem bonito. Mesmo sendo terrivelmente rabugento e até com aquela cicatriz no rosto, cicatriz na qual ela achava muito sexy até. Ele começou a abrir os olhos lentamente e ela se afastou.
— O que você quer? — Ele perguntou suspirando.
— Eu preparei o almoço. — Respondeu e ele suspirou de novo, tentando se levantar.
— Precisa de...
— Não. — Ele a interrompeu, secamente, terminando de se levantar com a ajuda da bengala e indo para a sala de jantar.
— Eu fiz batata ao creme. Na verdade é uma das poucas coisas que eu sei cozinhar. — Ela comentou e ele se sentou como se não tivesse escutado uma palavra se quer que saíra da boca dela. — Você se importa se eu comer aqui com você? Eu não gosto muito de comer sozinha. — Pediu e ele deu de ombros. — Você quer que eu...
— Eu não sou uma criança, senhorita Miller. Acho que sou capaz de me servir sozinho. — Tyler a cortou e voltou a colocar a comida no prato com certa dificuldade. Assim que levou a primeira garfada a boca, fez uma careta. — Ah, Deus... Você quer me matar?
— O que? Eu não. Não gostou?
— Você colocou quantos quilos de sal nessas batatas? — Perguntou com uma careta de desgosto no rosto e ela provou a comida, não sentindo nada de diferente.
Talvez os remédios que ele tomasse o deixavam sensível para o sal. Ela se lembraria de colocar menos da próxima vez.
Na verdade a comida estava boa, ótima até, ele pensou, mas era divertido provocá-la. Depois de várias críticas de como a batata estava dura e o creme frio, ele voltou a comer.
— O senhor tem alguma tarefa para mim, senhor Smith? — Ela perguntou assim que terminaram.
— Tudo bem. — Ele disse esfregando os olhos e suspirando. — Se você quer tanto uma tarefa. Aqui. — Ele pegou um pedaço de papel do bolso de seu jeans e escreveu um nome estranho com uma caneta que estava jogada sobre uma estante, próximo à mesa de jantar e a porta que levava à cozinha. — Vá até a loja de animais e traga essa ração. É especial e difícil de encontrar. — Entregou à ela o papel. — A que eu tinha acabou.
— Ração?
— Para o meu gato. — Explicou.
— Eu não sabia que o senhor tinha um gato.
— Ele não é muito sociável. Algum problema com gatos? É alérgica? — Ele perguntou quase esperançoso.
— Não.
— Merda. — Ele murmurou se levantando.
— Mais alguma coisa?
— Não. Só a ração.
Ana saiu e rodou cinco pet shops diferentes, mas não encontrou a ração. Voltou para casa de mãos vazias.
— Você demorou. Onde está? — Perguntou com uma sobrancelha arqueada.
— Desculpe, senhor Smith. Eu fui a cinco lojas diferentes, mas ninguém conhece essa ração. Eu poderia...
— Não. Você queria tanto uma tarefa e eu lhe dei, mas se não consegue comprar ração, então não acho que sirva para tratar de assuntos mais sérios.
— Senhor Smith , eu garanto que...
— Você fez tudo o que podia e blá, blá, blá. Estou no escritório. E a menos que a casa esteja pegando fogo, não me chame. — Avisou e foi mancando para o escritório.
Ana pegou a chave do carro, não iria desistir até conseguir a maldita ração! Encontrou um último saco e pagou quase cem dólares por ele. Voltou para a mansão satisfeita e orgulhosa de si mesma.
— Senhor Smith? — Ela chamou, batendo na porta do escritório e depois ouviu um resmungo.
— É bom que a casa esteja fodidamente pegando fogo... O que é? — Perguntou escancarando a porta.
— Eu consegui a ração.
— Parabéns para você.
— Onde ele costuma comer?
— Onde quem costuma comer? — Questionou ainda meio grogue pelo remédio para dormir, que havia tomado depois do almoço.
— O seu gato.
— Eu não tenho gato. Eu queria que você saísse da casa e me deixasse em paz. — Explicou bocejando, fazendo pouco caso.
— Você está brincando. — Rosnou. Não acreditava que aquele infeliz estava tirando sarro de sua cara.
— Não estou, não. Meu gato morreu há uns três anos.
— Eu rodei a cidade atrás dessa ração e você nem tem um gato. — Falou mais alto do que pretendia.
— Eu não gosto que gritem comigo.
— E eu não gosto que me façam de idiota.
— Então é simples: vá embora! — Ele rugiu.
— Eu não vou embora. Não vou deixar... — Umedeceu os lábios. — Não vou deixar esse emprego e nem você. — Tyler sentiu a intensidade das palavras dela e seu estômago revirou. — Por pior que você seja, eu não vou.
— Por que não? Você não me conhece e tudo que eu tenho feito é ser desagradável com você. Então por que não vai embora?
— Eu não sei.  Eu normalmente sou feliz nos meus empregos, mas aqui...
— Você não é. — Constatou. — Então vá embora. Não seria a primeira. — Disse fechando a porta em sua cara... Ela respirou fundo e continuou falando:
— Eu admito que não tivemos um bom começo, mas eu acredito que todos temos sombras e luz dentro de nós. E acontece que você tem passado mais tempo nas sombras do que na luz. Eu não sei do seu passado. O senhor Patz não disse muito. Eu sinto muito que ela tenha deixado você, mas eu não vou embora. Estarei arrumando a biblioteca se precisar de mim.
Ela permaneceu um tempo atrás da porta, esperando por alguma resposta, mas Tyler – do outro lado, encostado a madeira que os separava –, nada disse. Ana suspirou, tristemente, e foi em direção a biblioteca.
Haviam vários livros espalhados pelo chão. Ela começou a limpa-los e catalogou alguns, mas seu horário já estava acabando, então foi procurar pelo seu patrão, mal humorado, e avisá-lo que estava saindo.
Foi até o escritório, mas a porta estava aberta e não tinha ninguém ali. Ela ouviu barulhos na cozinho e foi até lá.
— Eu pensei que você não tivesse gostado. — Ela disse o olhando se servir de um grande prato da batata. Quando a ouviu ele saltou de susto, quase derrubando o prato.
— Puta merda, menina. Você quer me matar de susto? Eu pensei que já tivesse ido. Quando estiver perto faça algum barulho. Parece um fantasma.
— Eu pensei que as batatas estavam salgadas. — Comentou divertida, apontando para o prato e ignorando seus insultos.
— Estão, mas eu estou com fome e na fome eu comeria qualquer coisa, até isso. — Apontou com o queixo as batatas em seu prato, fazendo-a semicerrar os olhos, indignada. — Já terminou o interrogatório? Seu horário não terminou... — Checou o relógio de pulso. — Há cinco minutos? — Perguntou.
— Já. Eu só vim avisar que estou indo. Até amanhã.
— Por mim não teria um amanhã, mas já que não consigo me livrar de você. — Fez uma careta e ela sorriu de orelha a orelha, feliz por estar ganhando aquela batalha.
— Boa noite senhor, Smith . — Se despediu satisfeita.
— Tanto faz. — Balbuciou, infeliz, voltando a comer as batatas.