domingo, 25 de junho de 2017

CAPÍTULO 11- UM ORIGINAL

Vingança para o mal - 11: Desistir não é uma opção. 





  
  
— Mariana Alonzo Alves! – Eduardo rugiu assim que ela passou pela porta.
— Algum problema, tio? – Perguntou o olhando.
— Mônica me disse que você não vai mais fazer a prova de ingresso. É verdade?
— É. – Respondeu naturalmente se jogando no sofá.
— Por que, Mari? Eu não entendo. Quando você era pequena, insistiu tanto para que eu a treinasse. E para que? Para largar tudo? Agora que é uma das melhores.
— Eu mudei de idéia, tio. Eu posso fazer isso, sabia? – Respondeu irritada indo para seu quarto.
Eduardo não entendia o que havia acontecido. Mari havia acabado de completar 18 anos. E ia fazer a prova de ingresso para a polícia, e simplesmente havia desistido? Para que ela teve todo o trabalho de convencê—lo quando era pequena, se iria desistir? Por um lado estava aliviado por sua sobrinha desistir dessa vida. Sabia o quão perigosa poderia ser. Mas também estava confuso. Tivera tanto trabalho para convencê—la a não treinar e a fazer outras atividades , mas quando havia cedido e a treinado, ela havia desistido. Ainda se lembrava daquela época.
Flashback On
Eduardo estava tentando, mas sua vida virou de cabeça para baixo e ele sabia que não podia sustentar por muito mais tempo aquela situação, ele precisava de alguém para cuidar de Mari a tarde, felizmente Mônica lhe deu uma boa sugestão e ele resolveu comentar a respeito com Mari naquela tarde, enquanto ela terminava sua lição de matemática, deitada de bruços no chão.
— Mari, o que você acha de fazer algumas atividades complementares na escola? Eu conversei com a diretora e ela disse que há várias coisas legais que você pode fazer depois da aula.
Mari levantou os olhos na direção dele, sem expressar nenhuma reação. Ela continuava com esse semblante neutro, aquele que o fazia se perguntar o que diabos ela estava pensando?
— Tipo o que?
— Tem ballet, música, esportes, artes, teatro. Muitas coisas, acho que você vai gostar. — Disse animado, tentando passar para ela esse sentimento, mas ela apenas voltou para sua atividade, ignorando—o.
Deus, aquilo estava começando a tirá—lo do sério. Ele notou que sempre que dizia alguma coisa que ela não gostava, ela o ignorava e ele não iria mais tolerar aquilo.
— O que acha? Diga alguma coisa. — Tentou não soar muito irritado e ela voltou a fita—lo.
— Dizer o que, tio? É você que manda em mim. Se quiser me deixar no seu apartamento...
— Nosso. — A corrigiu e ela se sentou no chão.
Seu. Aquela não é minha casa, eu odeio aquele lugar, eu odeio ter que comer a mesma coisa de micro—ondas todos os dias, eu odeio ter que ficar aqui. — Pela primeira vez Eduardo a ouvia dizer alguma coisa sobre sua nova vida, pois ela sempre o olhava indiferente e o obedecia, mas nunca dizia o que estava sentindo ou pensando, ele admitia que via aquilo como um bom progresso, apesar das palavras dela o terem o magoado.
Ele estava tentando ajudá—la, estava mesmo. Tudo ainda era muito novo para ele também, será que ela não podia ter um pouco mais de paciência? A mesma paciência que ele estava tendo com ela?
— Então não tenho nada pra falar por que não importa. — Sibilou. — Se você vai me deixar no apartamento, aqui, na escola. — Jogou de ombros. — É você quem vai decidir mesmo.
— Importa sim. Claro que importa. — Se levantou. — Eu quero te ajudar, Mari.
A garota se levantou também, seu tio era alto – 1,88 –, então era muito ruim conversar com ele quando ele estava em pé por que ela sempre tinha que ficar olhando pra cima e com ele em pé e ela no chão era pior ainda.
— Se quer me ajudar então por que você não me treina? Me treina pra mim me defender.
Eduardo travou a maxilar. Aquele assunto de novo.
Mari há uns três dias cismou que quer aprender a lutar como ele para que possa se defender, mas ele já havia dito que aquilo não era necessário.
— Já falamos sobre isso.
— Então por que você fica querendo saber o que eu quero se o que eu quero você não me dá? Que idiotice. — Se exaltou e ele semicerrou os olhos.
— Olha como fala.
Ela desviou o olhar e voltou a fita—lo em seguida, seu semblante ficando neutro de novo.
— Eu já disse que não tem necessidade disso, Mari. Eu vou te proteger, nada vai te acontecer.
— Como sabe?
— Eles não vão vir atrás de você.
— Você sabia também que eles não viriam atrás dos meus pais? — Sua pergunta saiu inocente, a curiosidade em cada palavra, mas para Eduardo foi como um balde d’água fria.
— Não vamos mais falar sobre isso. Você é uma criança de seis anos, Mari, pelo amor de Deus, garota! Você é uma criança, eu entendo que você está com medo, mas não tem que querer aprender a lutar, vai brincar, vai pintar, vai fazer alguma coisa que uma criança normal faz. — Se exaltou, não medindo suas palavras, mas logo ele tentou arrumar o que disse. — Desculpa — se ajoelhou, ficando quase na altura dela —, eu não...
— Teatro. — Respondeu simplesmente voltando a se debruçar sobre seu caderno de matemática.
Eduardo engoliu em seco e passou a mão pelos fios curtos de seu cabelo negro.
Céus, ele não sabia lidar com uma criança, ele não sabia o que estava fazendo. Ele nunca se sentiu tão inseguro. Em todas as missões que ia era sempre ele que tomava a frente e dominava a situação, mas agora, com Mari, ele se sentia mais perdido do que bala em tiroteio.
~*~*~
Mari já não passava mais suas tardes no escritório do tio, depois das aulas ela fazia teatro e artes, pois ainda lhe sobrava um tempo até que seu tio a buscasse, agora as 5:30 da tarde. Contudo ele sempre se atrasava e aparecia depois das 6:00PM, por que saia do trabalho a essa hora e até chegar no colégio levava um tempo.
Depois eles jantavam – geralmente era congelados, mas Eduardo começou a cozinhar algumas coisas, admitia que no começo ficavam horríveis, mas até que estava começando a pegar o jeito – e ele a ajudava na lição de casa (quando ela mesma não fazia enquanto o aguardava na escadaria do colégio) e por fim a colocava—a para dormir.
Certa noite ele acordou com alguns ruídos e logo pegou sua arma na gaveta do criado mudo e pulou da cama, indo com cautela até a origem do barulho.
Choque, horror e raiva devastaram sua alma ao notar que o barulho vinha de dentro do quarto de Mari, ele viu pela brecha da porta que ela havia pendurado o travesseiro – de um jeito bem engenhoso – no guarda—roupa e o socava. Ela socava e se abaixava, socava e se abaixava.
— Mariana. — Ele empurrou a porta, assustando—a. — O que pensa que está fazendo?
Ela se recompôs.
— Aprendendo a me defender. — Suas palavras saíram sem nenhum pingo de emoção.
Eduardo ficou boquiaberto.
— Eu disse não!
— Você disse que não ia ajudar eu a me defender, mas não disse que eu não podia treinar sozinha.
Ele enxergou vermelho, não estava acreditando que sua sobrinha estava fazendo um absurdo daqueles.
— Para com isso. — Colocou a arma na bainha da calça moletom e a segurou pelos ombros. — Para! Não quero você fazendo essas coisas, Mariana. Você é uma criança de seis anos de idade, já deu! Não quero mais saber disso. — Ele a soltou, seu coração estava acelerado.
Ele sabia que a morte de seus pais ainda estava recente, mas não achou que ela fosse ter essas reações. Desde o dia em que ele a encontrou nunca mais a viu chorar. Ela devia chorar, não devia? Devia conversar com ele sobre isso, devia fazer perguntas. Ela devia querer ser consolada, não é?
— Sete. — Foi apenas o que respondeu, olhando—o dentro dos olhos, séria.
— O que? — Ele franziu o cenho.
— Fiz sete anos dia 13 de setembro.
Eduardo sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés.
Ele havia esquecido o aniversário de sua sobrinha, de sua sobrinha que havia perdido os pais, de sua sobrinha que a cada dia que passava se mostrava cada vez mais distante.
— Mari — ele sentiu seu coração se apertar e uma grande vontade de chorar, só queria abraça—la e dizer que sentia muito, que se pudesse traria seus pais de volta, mas... mas ele não podia. — Mari, eu — passou as costas da mãos pelos olhos, limpando a lagrima que escorreu e engoliu em seco, controlando—se —, eu não me lembrava. Me desculpe, você quer uma festa? Podemos fazer uma festa bem legal pra você, podemos chamar seus amigos.
Mari balançou a cabeça negativamente e abriu, pela primeira vez, um pequeno sorriso, fazendo Eduardo perder o ar.
— Não precisa, tio. Agora eu vou dormir. — Ela deitou na cama e se cobriu, ficando de costas para o tio, o sorriso desapareceu e ela fechou os olhos, pensando que o teatro poderia realmente ser útil.
Flashback Off

Eduardo pegou o telefone e discou o número de Mônica. Precisava sair e conversar. Alguma coisa estava errada, mas mesmo com sendo ótimo em seu trabalho de investigador, não sabia o que era.

CONTINUA...