quarta-feira, 26 de abril de 2017

CAPÍTULO 03 -UM ORIGINAL



Vingança para o mal - 03: Um bom professor.






Noite do crime. 07 de setembro de 2002.


—Acha que a levaram?

—Eu não sei senhor. Só encontramos um casal. Por que a levariam? Ou a deixariam viva?

—Vamos continuar procurando.

—Aqui. Encontramos uma menina. - Um policial gritou.

—Me solta!!!


 Mariana gritava e lutava tentando se livrar de qualquer um que a tocasse. Ela ainda estava em estado de choque quando o policial a encontrou, mas assim que a tocaram ela começou a gritar. Eduardo correu até ela tentando acalmá-la.


—Tudo bem Mari...

—Quem é você? Como sabe meu nome?

—Ei tudo bem Mari. Eu sou irmão da sua mãe. Me chamo Eduardo, tudo bem?


 Ele disse com as mãos para cima em sinal de rendição. Não queria assustar a menina mais do que ela já estava assustada.

—Você... Você se chama Eduardo?


 Mariana perguntou meio hesitante.Ele parecia familiar. Talvez ela o tivesse visto em fotos da família ou algum jantar com seus pais quando ela era mais nova.

—Sim. Sua mãe pediu para cuidar de você se algo acontecesse a ela e ao seu pai. Ela te falou de mim?


 Mariana assentiu e abraçou o próprio corpo sentindo a garganta se fechar pelas lagrimas que ela segurava. 


 - Pode vir comigo pequena. 


 Ele disse e ela correu para os seus braços se permitindo chorar pela primeira vez desde que tudo começou.


 - Shiu... Tudo bem. Tudo vai ficar bem. 



Ele enrolou a menina que tremia em uma manta e foi para o carro com ela em seus braços. Como ele era irmão de Marieta e em seu testamento ela havia o deixado como responsável por Mariana, alguns dias depois tudo foi oficializado. Agora Eduardo tinha a custodia dela e ela moraria com ele.

—Esse é seu quarto. 


 Ele disse enquanto ela observava tudo com seus olhos curiosos.


 - Eu já matriculei você no colégio. Segunda feira você começa. 



 Ele viu que Mariana estava com um olhar pensativo.


 - O que foi?


—Eu... Eu estive pensando. Você é policial não é?

—Sim, eu sou.

—Então você sabe como se defender? Em brigas ou se alguém for atrás de você?


 Ele não gostava do rumo que a conversa estava tomando, mas queria saber onde ela queria chegar, então a deixou continuar.

—Sim Mari, eu sei. Por que essas perguntas?

—Pode me ensinar?

—Mari...

—Eu quero saber me defender. Por favor. Se eles voltarem eu...

—Não vão. 


 Eduardo se ajoelhou em sua frente. - Eles não chegarão perto de você novamente Mari. Mas se você realmente quer...


—Eu quero.

—Eu acho que posso lhe ensinar algumas coisas. Você é muito pequena ainda, mas eu posso ensinar algumas coisas. Mas só se for bem na escola. É um bom acordo para você?

—Sim senhor.

—Ótimo. Que tal um sorvete?- Ela assentiu e o assunto estava esquecido. Por enquanto.

Seis meses depois...

—Aqui está. - Mariana disse para Eduardo lhe entregando um papel.

—O que é isso?

—Meu boletim- Ela disse e Eduardo olhou mais atentamente.

—Muito bem. Ótimas notas mocinha. Acho que alguém merece uma recompensa.

—Sim, você vai me treinar.

—Mari...

—Nós fizemos um acordo.

—Não vai deixar isso, não é?- Ela negou com a cabeça e ele suspirou.

—Está bem. Vamos lá fora.


Algumas semanas depois...




—Como isso vai me ajudar Eduardo?

—Primeiro não me chame assim mocinha, eu sou seu tio.

—Desculpe. - Ela disse olhando para baixo.

—Em segundo lugar, você precisa criar músculos. O que esperava? Que eu te ensinasse a lutar logo de cara? Você só tem seis anos Mariana.

—Tenho sete. Fiz aniversário dia 07 de setembro.

—Mas dia 07 foi...

—Sim. Quando meus pais morreram, esse presente foi uma merda.

—Ei, onde aprendeu essa palavra? Dez no chão. Agora. - Ela revirou os olhos e começou.- Bons soldados não usam essas palavras.- Eduardo percebeu que o aniversario dela era só uma das varias coisas que ele não sabia da sobrinha. Quando Marieta havia se envolvido com José os dois se afastaram e perderam contato. Ele só soube que tinha uma sobrinha quando sua irmã havia lhe ligado uma semana antes de tudo acontecer. Mariana terminou de contar e se levantou.

—Desculpe.

— Eu entendo que queira saber se defender e isso é ótimo querida, mas não precisa pegar pesado. Você é só uma criança e é meu trabalho protegê-la. E eu o farei. Sabe disso não é?- Ela assentiu olhando para baixo. – Por hoje chega. Continuamos amanhã.

Alguns meses depois.
—Bom dia. - Eduardo disse segurando a garrafa de café. Ele sabia que dia era hoje, e sabia que seria um dia difícil.

—É. Alguma coisa assim. - Ela disse amuada.

—Eu sei que hoje é um dia difícil para você. Quer ficar em casa? Podemos ir ao cemitério visitar mais tarde, o que acha?

—Acho que vou passar.

—Mari...

—O que? Não estou triste. Por que estaria? Porque hoje é aniversario da minha mãe? Da minha mãe morta?

—Mariana...

—Eu estou bem. Eu tenho aula. Vejo você mais tarde tio.

—Tudo bem. Você tem meu numero se precisar de algo.



Eduardo estava no trabalho olhando as fichas de alguns suspeitos do assassinato de sua irmã e cunhado quando o telefone tocou e ele atendeu automaticamente.

—Alves.

—Senhor Alves, aqui é a Srta. Fernandes do colégio da Mariana. O senhor é tio dela?

—Sim, sou eu. Algum problema? Mariana se machucou?- Perguntou alarmado e a mulher suspirou.

—Mariana está bem. Sua colega de classe por outro lado... O senhor poderia vir até aqui para conversarmos?

—Estou indo para ai. - Ele desligou e saiu.

Chegando na escola Mariana estava sentada em um banco e ao seu lado haviam duas mulheres e um menino com um curativo no nariz.

—O que aconteceu?

—Sr. Alves. Pode me acompanhar, por favor?- Eles entraram na sala da diretora e se sentaram. - Essa é a Sra. Clarke. Mãe do Luan. - Ela disse apontando para o garoto com o curativo. Ao que parece houve um desentendimento e eles... Brigaram.

—Essa maluca quebrou o meu nariz. - Luan gritou chorando.

—Você começou. Seu molenga. - Mariana disse.

—Mariana. - Eduardo a repreendeu e ela se calou e tornou a ficar de cabeça baixa.

—Como eu dizia. Eles se desentenderam, e ouve uma briga. Mariana bateu em Luan e quebrou seu nariz.

—Eu sinto muito Srta. Fernandes.

—Eu espero que entenda que esse comportamento é inaceitável.

—Eu quero essa menina longe do meu filho Srta. Fernandes- A mãe de Luan disse.

—Eu entendo Sra. Clarke e...

—Espere, a senhora não vai expulsar Mariana não é mesmo? Eu entendo que o que ela fez foi errado, mas ela não é assim. Deve ter tido um motivo. Não que justifique, mas... - Ele disse olhando para Mariana. - Por que bateu nele Mari?

—Eu perguntei para a Srta Paiva se fazer o cartão de dia das mães era obrigatório, então esse molenga disse que eu não devia gastar folha porque fantasmas não lêem cartões. Depois ele disse que eu era estranha por ... Não importa.Eu estou encrencada? Eu sei que o que eu fiz foi errado, mas não lamento.

—Você ouviu Srta. Fernandes? A menina não está arrependida pelo seu comportamento. O que vai fazer?

—Espere um momento Sra. Clarke. O seu filho não agiu certo também. Esse tipo de comentário que ele fez a respeito da mãe dela não é direito. Mari... - Ela disse e Mariana levantou seu olhar. – Eu sinto muito que ele tenha dito isso. Você disse... Disse que ele a chamou de estranha. Por que ele disse isso?

—Podemos ir tio? Por favor?

—Responda a pergunta e podemos ir Mari. Por que ele te chamou assim?- Ela suspirou e olhou para o seu tio.

—Porque todos os dias depois da aula eu vou visitar o papai e a mamãe. Esse imbecil descobriu há alguns meses e não para de me perturbar desde então.

—Você... Você tem ido visitá-los no cemitério Mari?- Eduardo perguntou e ela assentiu.

—Estranha. - Luan cantarolou e Mariana se levantou o fazendo se encolher.

—Parece que tudo foi esclarecido Sra. Clarke.

—Então vai expulsá-la?- Ela perguntou e Luan sorriu.

—Não. Ambos estão errados. Acredito que uma suspensão está de bom tamanho. Parece justo para você Sr. Alves?

—Muito justo Srta. Fernandes. Eu vou conversar com a Mariana. Isso não vai tornar a se repetir.

—Pois para mim não. Não quero meu filho estudando com essa delinquente.

—Eu já tomei minha decisão Sra. Clarke. E gostaria que não se referisse aos alunos dessa maneira. Agora se me dão licença. - Ela disse se levantando.

Mais tarde no carro, Mariana ainda se mantinha calada.

—A Srta. Fernandes foi muito boa com você Mari. Por que não me disse que onde estava indo depois da escola?- Eduardo perguntou no carro.

—Não me pareceu grande coisa.

—Você vai todos os dias?- Ela assentiu. - Por quê?

—Pra contar pra eles como foi meu dia.

—Por que não quis ir ao aniversario dela?

—Eu fui. Eu só... Só queria ir sozinha. - Ele suspirou e sorriu.

—Quebrou o nariz dele.- Ele disse em um tom quase orgulhoso.

—Ele mereceu. - Ela disse satisfeita.

— E não vejo nenhum arranhão em você.

—Tive um bom professor. - Ela sorriu pensando em seu futuro e no futuro daqueles que tiraram seus pais dela. Ela tinha um bom professor. Que a ensinaria tudo que ela precisaria saber. Ela não tinha o que temer. Aqueles que se meteram em seu caminho por outro lado...



CONTINUA...
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